Aqui você encontra diversas notícias relacionadas aos projetos e trabalhos realizados pela Fundamar, veiculados em vários meios de comunicação, em âmbito estadual e nacional.

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Amílcar de Castro de A a Z
Direito Internacional Privado, de Amílcar de Castro, este pode ser adiquirido no todo ou em parte pelo www.revistaforense.com.br
Inauguração Sala Especial Desembargador Amílcar de Castro
Nova Etapa do Projeto Desembargador Amílcar de Castro
Carlos Lacerda de A a Z
Entrevista do Presidente da Fundamar sobre Carlos Lacerda no Programa "Sintonia" do canal de TV da Câmara Federal em 2008
Reencontro com Carlos Lacerda - texto de Murilo Badaró
Relação dos livros de C. L. co-editados pela Fundamar
Feridos pelos mesmos espinhos - Carta de Juscelino a Carlos Lacerda
Arquivo Carlos Lacerda na UnB - História Resumida
Carlos Lacerda e a Educação no Brasil
Artigo de Márcio Moreira Alves em 11/01/1997
Prêmio da Fundação Abrinq
Iniciativa da Fazenda Escola Fundamar deve ser modelo - matéria da Abrinq
Prêmios Bem Eficiente recebidos de 1997, 2000, 2005 e 2006
Xadrez - Poema dos alunos da E.E. Fundamar
LIVROS E IMPRENSA
Carlos Lacerda de A a Z
ABOLIÇÃO - “Seu marido, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, o Barão do Pati, na minuciosa memória que escreveu sobre o modo de formar e manter uma fazenda, falando da relativa improdutividade e absoluta carestia dos escravos, na terra escalavrada, chega a recomendar que para evitar a quebra na produção é conveniente fazer os moleques que descascam amendoim assobiarem durante o trabalho, para não comerem demais aquele grão. E já plantavam amendoim e mandioca porque, com escravo ou sem ele, a terra já não dava café, e o café já não dava o que dera. Esta realidade, ignorada muito tempo pela história oficial para a qual foi a Abolição que desorganizou a agricultura, desvendou documentadamente o jovem mestre americano Stein, que fez o que no Brasil fizeram os Varnhagen, os Capistrano de Abreu, os Rodolfo Garcia, os Gilberto Freyre, os Otávio Tarquínio e poucos mais: foi às fontes. A renovação estava no ar, todos a sentiam. A escravidão já estava liquidada, antes de acabar. Não sem antes atrasar o Brasil, ao sobreviver além de toda expectativa”. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 46/47).
ACASOS – “É mais difícil acreditar no mero acaso, numa série infinita de coincidência, do que naquilo que os gregos chamaram fatalidade, o sentido do destino e os cristãos chamam a Providência”. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 195).
AÇÕES AO PORTADOR - "Abolir ações ao portador, é salvaguardar os interesses da economia nacional e permitir que se conheçam a origem e a propriedade do capital das empresas". (Justificativa Projeto 360 em 14.905.55 – apud Maria Atayde Albite Ulrich in "Carlos. Lacerda e a UDN – 1955-1965" – Dissertação de Mestrado - PUC/RGS/1984, página 79)(*)
ADOLESCÊNCIA - "Letícia costuma dizer que tem muita pena da juventude, de suas indecisões e perplexidades. Não sei se é caso de pena, mas certamente não há maior estupidez do que invejar a adolescência, essa maravilhosa idade da vida em que as pessoas sofrem a infelicidade de não saber o que são. Dizem que conselho não se dá nem a quem pede. Eu dou porque vivo recebendo outros." (“Rosas e Pedras”, edição 2001, página 128).
ADVOGADO I - "Gosto do advogado que resolve, não do que cria dificuldades". (Manchete de 18.07.77. p. 53 e em “Rosas e Pedras do Meu Caminho”, ed/UnB-Fundamar, 2001, página 94).
ADVOGADO II – “Mas tenho muito respeito pelo jurista que se incumbe de pôr ordem na liberdade, desde que não a sufoque em nome da ordem. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, página 63).
AGOURO – “o meu agouro consistiu em prever, por intuição e experiência de quem aprendeu a própria custa avaliar o resultado dos erros de boa ou má fé, na sorte do País. Creio estar em condições de prever sem precisar de adivinhação planejante, o que vai acontecer ao país, se a dureza de uma política econômica sem flexibilidade persistir sem contrate e sem crítica válida”. (“O Brasil entre a Verdade e a Mentira”, edição Bloch, 1965, página 81).
AMBIÇÃO I – “Sou dos querem tudo. Por isso é que não sou ambicioso no sentido vulgar do termo, dos que aspiram alguma coisa em particular, uma só, consagradora e definitiva. Não tenho a ambição da legião de honra ou a de ser troço na vida. Tenho ambições bem maiores. E um temor considerável de me deixar esmagar pelo êxito, medalhar-me, consolidar-me na mesquinharia”. (“Crítica e Autocrítica”, ed/Nova Fronteira, 1967, página 13).
AMBIÇÃO II - ”A mediocridade predominante na política brasileira desde o seu esvaziamento pela ditadura tende sempre atribuir miseráveis ambições a quem tem altas aspirações. Permita dizer-lhe, Senhor Presidente, que ao lado de muitos erros que não escondo, e dos quais sempre procuro corrigir-me, tenho dado exemplos de desambição que me autorizam nesta matéria, dar e não receber lições de quem quer que seja.” (Carta ao Presidente Castelo Branco, apud Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda – 10 anos Depois”, editora Nova Fronteira, 1987, página 142).
AMIZADE I – “Confesso que sou amigo incerto, nas horas certas, embora nas outras horas, as incertas, procure acertar. O culto superficial de amizade que consiste em visitinhas, cartões e telegramas, não é o meu forte. Muito ao contrário. Tento às vezes, mas em vão”. (“Crítica e Autocrítica”, ed/Nova Fronteira, página 15/16).
AMIZADE II - "Amigos de infância, companheiros de profissão, colegas, por imposição de disciplina partidária, por decisão órgãos superiores do Partido Comunista, passaram a difamar-me, a mim e à minha própria família. É claro que não lamento a perda desses amigos que não o eram. São esses mesmos que fazem a conspiração do êxito de semi-literatos, de uma "cotérie" literária, artística, jornalísticas, etc., conforme o maior ou o menor grau de submissão de seus elementos ou interesse à "linha" do comunismo" ("Palavras e Ação", editora Distribuidora Record, 1966, página 98).
AMOR E ÓDIO - "Um italiano, o mesmo que recriou "A megera domada", deu agora à tragédia de "Romeu e Julieta" a dimensão que talvez Shakespeare lhe quisera atribuir. Franco Zefirelli, ao dirigir esse filme na adaptação de Franco Bussati e Massolino d’Amico, não somente criou uma obra de insuperável beleza como deixou marcado, sem nenhuma deformação, o sentido revolucionário dessa obra: o drama do amor que pelo sacrifício pacifica uma povo no qual o ódio dominante mantém a opressão e o medo. Até agora vi cinco vezes essa obra" (Carlos Lacerda, "O CÃO NEGRO", edição Nova Fronteira, 1971, páginas 25/26)”.
AMOR PRÓPRIO – “A distinção entre prazer e sofrimento é muito sutil e às vezes imperceptível. Por isto mesmo, viver não é para mim apenas contemplar a vida, mas multiplicá-la pela participação. Quase diria, se não fosse o pudor de parecer exagerado, que o principal sintoma de estar vivo é ser útil. Mas ser útil, é uma obra que exige paixão. Até porque, no meu entender, o amor ao próximo é a mais alta forma, a mais requintada, do amor próprio; é o máximo de perfeição que o egoísmo pode chegar”. (“Crítica e Autocrítica”, editora Nova Fronteira, 1966, página 25).
ANALISTAS - “Posso dar outro exemplo: a esquizofrenia. Melhor dito, as esquizofrenias, pois é no plural que se deve tratar do assunto. Temos visto analistas tratarem esquizofrênicos como vitimas do pai e da mãe, ou de ambos. Isto durante anos e a peso de ouro. (Aliás um dos truques mais freqüentes da psicanálise é o de tomar ao pé da letra velhas recomendações de Freud, segundo as quais o analisando tem que pagar o analista – e pagar em dia – sob pena do seu tratamento ir para o brejo; o que faz do analista, talvez, o profissional que inventou um ritual de defesa contra o calote. Não pagou não se trata. Fiado nunca). (“Em Vez ...”, 2a edição da Nova Fronteira de 1975, páginas 63/64).
ANGÚSTIA – “Sei que Tom(Jobim [1]) não quer parecer um magoado, um ressentido. Nem tem razão para o ser, esse criador, esse vitorioso. Não é questão de mágoa, é de angústia. Não é ressentimento, mas apenas sentimento do mundo nesta alma delicada, neste coração aflito. Queira ou não, isto ninguém evita, simplesmente assume porque tem boca, dois olhos e um nariz. Olhos curiosos que me interrogam. Angústia de ser, de viver, que resolve seu transe, seu trama e se liberta, em música”. (“Em vez”, editora Nova Fronteira, segunda edição de 1976, páginas 147/148).
ANJO DE BIBLIOTECA - "Acaso? Pois sim. Chego a divertir-me, quando tenho um assunto a estudar, deixando que ele venha a mim ao mesmo tempo que eu vou ao seu encontro. Dei ao fenômeno um nome, pelo qual é conhecido lá em casa. Chamo-lhe meu anjo-bibliotecário. Raramente ele atrasa: e nunca falha". (Carlos Lacerda, "O Cão Negro", editora Nova Fronteira, 1971, página 51).
APARTE I ao deputado JOSÉ PRESIDIO: "a julgar pelo partido que representa (PTB) e as companhias com quem anda, está com o sobrenome carregado de destino". (apud Carlos Alberto de Barros Santos, em “Nos descaminhos da Memória” de Carlos Alberto de Barros Santos, ed/imprensa oficial, 2002, páginas 12/14).
APARTE II à deputada Ivete Vargas - "Agradeço à nobre Colega o elegante aparte com que honrou e constrange-me dizer que se o meu discurso é um purgante, o aparte da nobre aparteante é o efeito". ("Fatos e Fotos" de 06.06.77, pagina 18 )(*)
APARTE III à deputada Ivete Vargas - "V. Excia. é muito jovem para ser minha Mãe" ( aparte à mesma deputada que ingressou no plenário o chamando f.d.p. segundo Carlos Brickmann in Jornal da Tarde de / / ).
APARTE IV – ao deputado ÚLTIMO DE CARVALHO - "Acordar cedo para chefiar um Governo desonesto (de Juscelino) é pior do que dormir até tarde". (Discurso pronunciado em 06.12.57 e publicado no DO de 18.12.57, Seção I apud Maria Alayde Albite, fls. 228/220).
APARTE IX - a quem lhe escreveu, usando palavrões, queixando-se de que tinha sido tratado como cretino, devolveu a carta com o bilhete: “Cretino não precisava provar que o é. Eu já sabia”. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 79).
APARTE V – Ao General Costa e Silva que pretendeu cortar a palavra dos Governadores revolucionários no Ministério da Guerra: “Bem General, o problema é o seguinte: eu não sei onde o senhor estava em 1945 e nem sei aonde o senhor estava em 1954, mas sei onde o senhor estava no onze de Novembro, o senhor estava ao lado do General Lott. De maneira que eu não preciso pedir licença para lhe falar no Palácio da Guerra. Quer o senhor queira ou não vou dar o recado que lhe trouxemos”. ( Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda e os Anos Sessenta – Oposição”, editora Nova Fronteira, 1988, página 72).
APARTE VI – no Aeroporto de Orly ao ser indagado como se sentia a saber que era conhecido na França como derrubador de Presidentes: “Conheço outros mais ilustres. O general De Gaulle derrubou um presidente antes de mim”. (Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda e os Anos Sessenta – Oposição”, editora Nova Fronteira, 1988, página 79).
APARTE VII - Em Orly ao ser indagado como explicar uma revolução sem sangue no Brasil, respondeu: “Foi uma revolução como os casamentos na França”. (Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda e os Anos Sessenta – Oposição”, editora Nova Fronteira, 1988, página 79).
APARTE VIII - a um deputado que o aparteou com a expressão “V. Excia. é que é ladrão!”, Carlos Lacerda indagou “Ladrão de que ?” Da “honra alheia”. “Neste caso fique tranqüilo porque nada tenho a furtar de V. Excia.”. ( Carlos Alberto Santo, “Nos Descaminhos da Memória”, ed/imprensa oficial, 2002, página 14).
APARTE X - Em Orly em 24 de abril de 1964 ao ser indagado sobre o apoio americano ao golpe de 64: “Nós não tivemos o apoio do Plano Marshall como vocês tiveram aqui. Ainda não.”. (Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda e os Anos Sessenta – Oposição”, editora Nova Fronteira, 1988, página 79).
APARTE XI - Em Orly em 24 de abril de 1964 ao ser indagado sobre a depurações que estavam havendo no Brasil: “Não houve depuração. Houve algumas prisões, cassação de alguns mandatos. As Forças Armadas fizeram isto para manter o Congresso aberto. Nós fizemos muito menos do que vocês após a Libertação. Não raspamos cabeça de mulheres, não fuzilamos ninguém”. (Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda e os Anos Sessenta – Oposição”, editora Nova Fronteira, 1988, página 72)
APARTE XII – Ao líder da maioria Vieira de Melo: “Tenho sempre muito prazer em dar a V. Excia. o meu tempo, já que V. Excia. o perde comigo”. (“Discursos Parlamentares”, edição Nova Fronteira 1982, página 322 na Sessão do dia 4 de Setembro de 1957).
ARITMÉTICA - "Não sei até hoje extrair uma raiz quadrada. A cúbica então é uma ficção científica". "Trato com bastante cerimônia as frações. Não saberia distinguir as próprias das impróprias". (“Rosas e Pedras do meu caminho”, edição Fundamar-UnB, 2001, página 95).
ARMANDO SALLES DE OLIVEIRA - "Estava, porém, diante de um homem - talvez o único (Júlio Mesquita Filho), hoje, no Brasil - ao qual dou o direito de errar, pois, se um erro existe, é baseado unicamente no sofrimento e no patriotismo. Quantos anos perdeu de sua vida, se a isto se chama perder, na prisão e no exílio, para salvar a honra, e com ela, o que ficou da pátria sob a ditadura? Seu cunhado, Armando Salles de Oliveira entregou-lhe a execução da sugestão que lhe dera, e no governo de São Paulo ele lançou as bases da universidade - o maior serviço até hoje prestado ao Brasil, em matéria de formação séria de um corpo dirigente, e cuja existência fez com que o surto industrial do governo de Juscelino Kubstcheck pudesse ter o apoio e não ser apenas uma transplantação de dinheiro, técnica e pessoal de fora para cá". (“Rosas e Pedras”, página 179).
ASSESSORES – “Nada há mais perigoso do que uma política conduzida por assessores através de homens do Estado que se convertem em meros executivos e, portanto, deixam de ser estadistas para serem porta vozes de seus assessores. É preciso cuidado para não confundir condução de negócios de Estado com gerência de uma casa comercial. O melhor economista, o melhor construtor de barragens, só por isto, não se transformam em estadista”. (Carta ao jornal O Estado de São Paulo, apud Cláudio L. de Paiva, “Carlos Lacerda – 10 anos Depois”, editora Nova Fronteira, 1987, página 170).
AUSÊNCIA – “Porém o próprio desses períodos, senão deles, dos que lhes sofrem as conseqüências, para não dizer os eflúvios ou emanações, a decisão de marcar a presença, pela ausência. Uma delas é a de se recusar a existir numa competição de mediocridades pressurosas, de concorrências espúrias. Menos espetaculosas do que outras, exige mais firmeza, dessa espécie rara e difícil das firmezas sóbrias e honradas, que tiram partido de si mesmas porque visam a, simplesmente, não ceder, não capitular; sem esperar sequer o reconhecimento público dessa difícil arte que é a de abster-se”. (“Em vez ...”, 2a edição de 1975, Nova Fronteira, página 13).
AUTOBIOGRAFIA I – “A mim me espanta ver como é vazia a minha biografia. O que dá, às vezes, uma confortadora sensação de mocidade, embora perturbadora sempre por uma fonte renitente de imaturidade. Mau pintor, mau político, mau jardineiro, amigo incerto e fugaz, escritor bissexto e sem sucesso, orador cansativo embora sensacionalista, o que salva é uma certa capacidade de emoção que nasce de um defeito maior do que todas as deficiências: só sei dizer o que sinto”, (“Crítica e Autocrítica, editora Nova Fronteira, s/d, páginas 21/22).
AUTOBIOGRAFIA II - "Ao longo de toda a minha experiência de luta, combatendo governos durante mais de trinta anos, governando cinco anos, trabalhando como parlamentar durante seis anos, escrevendo mais de cinco mil artigos políticos, afora outros, em cerca de 37 dos meus 52 anos de idade, tudo o que me faz parecer mais velho do que me sinto, tenho o direito de ser acreditado, ao afirmar que os erros no Brasil são, substancialmente, os mesmos e decorrem, fundamentalmente, das mesas e poucas razões". (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, página 115).
AUTOBIOGRAFIA III – “Muito moço ainda para entrar nos assuntos existenciais de minha geração, tive que fazer opção entre três posições: uma de inconformismo para virar o mundo de cabeça para baixo – necessariamente de esquerda; outra para colocar o mundo de cabeça para cima – e também de inconformismo – um mundo altamente hierarquizado, em que as estruturas tradicionais se cristalizavam e que era obrigatoriamente uma posição fascista ou semi-fascista e um mundo que seria eternamente uma “belle époque” em termos sociais, em que nada havia a alterar e em que uma grande massa de pessoas continuaria inteiramente ignoradas e abandonadas à própria sorte”. (Entrevista nas páginas amarelas da Revista Veja de 8 de maio de 1974).
AUTODEFINIÇÃO – “Sou feliz, sem nenhum ressentimento, com alguns arrependimentos e um ferocidade superficial, que me defende da ingenuidade nativa e dessa incansável alegria de viver ” (...) “Meu destino, parece, é fazer às pressas o que requer vagar e de vagar, o que a rigor, demanda pressa”. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 32).
BANCOS - "Assim esse Cosme de Médici que projetou o Banco tal qual conhecemos hoje, com a invenção de um sistema pelo qual se deposita dinheiro numa cidade para receber noutra bem distante, livrou a nascente burguesia européia da ameaça constante dos saques nas estradas, dos assaltos em que se compraziam os bandos feudais em perpétua disputa, todos mobilizados contra a formação de um Poder Nacional. A concessão papalina das jazidas de alúmen, usado para as nascentes tecelagens européias, com o nome de bauxita que depois lhe outorgaram, por causa da bela região provençal de Les Baux, deu aos Médici, além da posição de banqueiros na Europa, a de fornecedores privilegiados da indústria nascente". ("O Cão Negro", 2a edição Nova Fronteira, 1971, página 65).
BANDEIRA, MANUEL - "Demos, sem vergonha nenhuma um grande abraço. E começou o que Bandeira, num verso único, chamou o lado cabaré da vida comunista. Tenho horror a essa exibição de sentimentos íntimos.... Minha admiração pelo poeta só não é maior do que minha ternura por sua pessoa, sua grande valiosa pessoa; eu queria ser humano como ele é, como um pardal que vê um "tiê-sangue" voar. Não é inveja, é boquiabrir o coração de toda obrigação perante o espírito. Dizia Sthendal que tudo que é ético, quando atravessa a fronteira da Itália se transforma em estético. A ética se confundiu com a estética. Éramos os trânsfugas dos nossos próprios sentimentos, tínhamos o preconceito de não os ter, afrontávamos nossas próprias convenções, intencionalmente exageradas pela emoção a desafiar". ("Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, página 204).
BANQUETE DA VIDA – “Penso que o povo brasileiro tomou consciência das coisas boas da vida. Acho que a grande maioria do meu povo está ansiosa para participar desse banquete da vida. É por isto que penso que a luta de classes não terá sucesso no Brasil, que a revolução social tornou-se um anacronismo e que há uma revolução tecnológica. A tecnologia fará por nós o que Karl Marx queria fazer para o mundo”. (“Palavras e Ação”, editora Distribuidora Record, 1966, página 148).
BÁRBAROS I – “A civilização do império romano, afinal diluída ao mesmo tempo que salva pelo que erradamente se chamou a “invasão dos bárbaros, ou seja fecundação de culturas em crise por culturas intactas, e ainda que estouvadas, jovens e prontas a aceitar a influências como foram as dos celtas e dos árabes”. (“Em vez”, 2a edição da Nova Fronteira, 1975, página 172).
BARBAROS II – “O Império Romano que não se fez só pela conquistas de terras, também não caiu só pelo que chama se chama “invasão dos bárbaros”. A invasão dos bárbaros muitas vezes promovidas pelos próprios romanos, como preço a pagar pela sua própria prosperidade e grandeza, por sua paz e opulência, diluiu o império e barbarizou os romanos, enquanto romanizava os bárbaros. Indro Montanelli, que compõe a história em compasso de crônica, mostra isto lindamente. Falta alguém que faça isto com o Império Americano. Lá estão, nos guetos e nas universidades, os eruditos “bárbaros” que corroem o império”. (“Em vez...”, página 215/216)
BENEDITO VALADARES - "José Américo vai a Minas Gerais e promete dar a Minas a siderurgia que era a grande reivindicação dos mineiros. Benedito Valadares faz o famoso improviso, saudando José Américo como candidato das forças revolucionárias de 30. E diz: O nosso grande candidato Ministro José Américo promete a Minas o aço. E começou a improvisar sobre o aço: O aço com que se fazem as locomotivas. O aço para fundir os nossos canhões. Quando falou em canhões lembrou-se que isto poderia parecer estranho nos ouvidos de Getúlio Vargas. Então parou e ficou pensando para que serviriam os canhões. Canhões sim, mas não para matar. ("Depoimento", editora Nova Fronteira, 1977, páginas 32/33).
BERNARDES - "Quando mais uma vez, ele já morto, acusaram-no de ter impedido o Brasil de exportar minério de ferro pelo contrato com o grupo representado pelo inglês Percival Farqhuar, pedi a Bernardes Filho que me desse as provas, que alegava ter, justificativas da atitude do pai. Publiquei-as. Na realidade, o Presidente Artur Bernardes não foi contra a exportação de minério de ferro. Apenas, o contrato Farqhuar continha uma cláusula pela qual esta se obrigava a construir uma usina para exportar minério. Ao ser publicado, o contrato não continha a cláusula primitiva. Bernardes cobrou a usina. Teria feito a siderurgia no Brasil muito antes de Volta Redonda. Foi acusado, a vida toda, de ter impedido, por mero capricho e falta de visão, a exportação de minério". ("Rosas e Pedras", página 132).
BERNARDES, Arthur - "Fez um gesto solene, mandou-me sentar defronte da sua poltrona e disse, presidencialmente: "Quero lhe agradecer a generosa referência". Fez um gesto majestático, com quem encerra a audiência. Ouvi-o falar algum tempo. Todo o seu ser vivia política, um amante do espírito público. Fora daí, pouco sabia das encrencas do mundo, aquele homem que levou às últimas conseqüências a certeza de que encarnava a Lei, a ponto de prender e de ser preso, de fazer sofrer e de sofrer, para defendê-la. Um homem sem nenhuma experiência da vida, pois sua vida foi do Colégio Caraça, dos jesuítas da serra à polícia, dentro da qual viveu. Era o senso da missão que ele tinha? Em todo caso não mistificação". ("Rosas e Pedras", página 111).
BOA FRASE – “A esta altura devo dizer: reconheço que gosto de uma boa frase, de uma piada justa e isto faz-me parecer, por vezes, cruel. Até a pressa de terminar o discurso ou o artigo. E desagrada ver que com isto divirto a platéia. Tanto mais quanto, a crueldade alheia me tem ferido muito, e disto parece que poucos se apercebem, pois nunca me creditaram o sofrimento e a decepção. (“Critica e Autocrítica”, edição 1966 da Nova Fronteira, página 35).
BOI DE PIRANHA – “Gente que se elegia a custa de outros. A UDN, por exemplo, viveu muito às minhas custas neste terreno. É por isto que continuo dizendo que fui o boi de piranha da UDN. Quer dizer, aquele boi atirado ao rio para que as piranhas o comem para que o resto da manada possa passar incólume. Eu sugeri uma mudança na profunda da lei”. (“Depoimento”, editora Nova Fronteira, página 157).
BOM SENSO - "Não tenho medo que me considerem medíocre ou estúpido, pois tenho tranqüilidade a esse respeito. Sei ler e escrever, e até falar sem muitos solecismos. Por isso mesmo posso me dar ao luxo de dizer que o que mais falta no Brasil é o bom senso. E assim como a política não é incompatível com a inteligência, esta não se opõe necessariamente ao senso comum. Resignei-me a não ostentar minhas angústias como é próprio do intelectual. Não arvoro um otimismo demagógico epidérmico, como é próprio do político sem idéias. Sei quanto custa fazer as coisas, quando se quer fazer o certo. O senso comum, a inquietação e a ansiedade dos brasileiros não decorrem de um impulso revolucionário das massas. (“Palavras e Ação”, editora Distribuidora Record, 1966, página 182 e em "Lacerda, Idéias sim, Ideologia não", Manchete n. 607 de 7/12/1963, página 15).
BOSSA NOVA – “A música popular brasileira anda ressentida do que Ari Vasconcelos chama “o esforço”. No teatro, na serenata, na gravação mecânica, “os cantores tinham necessidade de gritar”. A bossa nova, em vez, é em surdina. É a música do microfone abafado. A musica no tom confidencial, mais ou menos do gênero “meu neguinho”, doçuras de cafuné, mas igualmente ironias suaves, um tanto ou quanto gordurosas, toucinhos-do-céu. A sua batida conquista o mundo. E Tom? Que fará Tom, agora, com o Tropicalismo, o samba afro-brasileiro, a música do terceiro mundo?”. (“Em vez”, editora Nova Fronteira, 2a edição 1976, página 135).
BRASIL CAPITALISTA – “O que se assiste no Brasil é uma revolução capitalista. O povo adquire hábitos de consumo, deseja ser proprietário, percebe que a autoridade é essencial à liberdade. A maior parte dos intelectuais que simpatizam com o comunismo são anarquistas que não ousam dizer seu nome. Simpatizam com as criticas dos comunistas às estruturas. Mas abominam o comunismo como solução quando o conhecem”. (in Revista Manchete n. 607 de 7 de dezembro de 1963, página 115).
BRASIL EM 1947 - "O Brasil está, por seus problemas, no segundo dia da criação. A Europa está crepuscular. Não tenhamos dúvida, ela irá renascer de tudo isto - e se não soubermos, se não quisermos agir, há de ressurgir precisamente à nossa custa. O maior brasileiro será, hoje, aquele que compreender a necessidade de mobilizar consciências e braços para a mais rude das tarefas: criar rapidamente uma Nação na grande terra comum que hoje é apenas o esboço de uma nação; tornar consciente um povo que, por dois terços de suas almas, é apenas vegetal. Vamos, vamos, não temos tempo a perder". ("Como foi perdida a Paz - Estudos e Crônicas” editora Ipê, 1946). Paz", edição Ipê - Instituto Progresso Editorial S.A., S.P., 1947, página 31)(*)
BRASIL GRANDE - "Se me perguntarem porque prevejo essa crise terei de escrever outro capitulo que esta história não comporta mais nem entra nos propósitos que levam a escrevê-la. Creio que poderia definir o problema, à luz de uma experiência sincera dizendo que o Brasil cresceu mais do que os homens que o dirigem e esses homens, com raras exceções, perderam essa medida. Quando o Brasil era pequeno, uns poucos grandes homens lhe bastavam; quando não os havia fazia-se de conta, como se fossem. (...) Ultimamente o Brasil foi governado por um certo tipo de mentalidade diante da qual o País continua a ser pequeno e débil a ponto de não poder se mover por seus próprios pés. Não conseguindo voltar ao Tejo para embarcar ali um novo Dom João VI, esse tipo de mentalidade voa para o Potomaque, e às suas margens proclama o seu horror à independência. Agora dir-se-ia que o Brasil se sente independente, mas não sabe o que fazer com esse sentimento. Deseja afirmar-se, mas não sabe bem o que diga. Deseja crescer mas tem certeza que esse crescimento não será acompanhado pelas calças e continuam preocupado com que não apareçam as canelas. Fez-se uma revolução, mas tem-se receio de dizer que a fez e a entrega à guarda dos que nem a fizeram, nem a entenderam, nem sabe o que ela virá a ser. Defendem o adjetivo, entregam o substantivo, desperdiçam o verbo". (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, páginas 299/300).
BRASIL I - "A grande batalha do Brasil é contra a miséria, contra o seu atraso, contra o desperdício de oportunidades, de energias, de recursos e de vida. O nosso ódio, devemos concentrá-lo nisso, não é necessário odiar para isso. O nosso amor, devemos concentrá-lo nisso, e não no culto a este ou àquele herói". (“O que há por de traz da Frente Ampla, "Carlos Lacerda, O Sonhador Pragmático" de Mauro Magalhães, página 330).
BRASIL II - “O Brasil cresceu mais do que os homens que o dirigem e estes, há muito tempo, com raríssimas exceções, perderam essa medida. Quando o Brasil era pequeno, uns poucos grandes homens lhe bastavam; quando não os havia, fingia-se de conta, como se fossem”. (Carlos Lacerda, “Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 299).
BRASIL III – “Em poucos anos se pode fazer do Brasil uma nação moderna e do povo o seu instrumento e o seu único herdeiro. Pois o povo que herdou a terra chamada Brasil não pode viver nela como se fosse um intruso apenas tolerado pelos que em vez servi-la apossaram-se dela e julgam poder salvá-la quando nem justificar-se conseguem”. (“Crítica e Autocrítica”, edição Nova Fronteira, sem data, página 30)
BRASIL IV - “O Brasil ainda é atrasado de mais para pretender ser uma democracia adiantada. Mas é um país adiantado demais para se conformar a viver sob tutela. É melhor ter uma democracia atrasada e melhorá-la do que não a ter, e não a melhorar. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 115).
BRASIL V - "Mais grave é essa omissão quando se considera - poderia estar disto convencido - que o Brasil, como toda América, tem uma grande função neste mundo de ódios visguentos, de agudos desvarios e depressões monstruosas. Somo realmente uma nação de paz, temos a vocação de cordialidade e neste sentido poderíamos ser hoje, no mundo, juntamente com umas poucas nações, mais um fator de equilíbrio, depósito de esperança latente. A nossa humanidade recebeu, por via dos portugueses que hoje Salazar procura deformar, o legado da convivência, o segredo da infância permanentemente assegurada". ("Palavras e Ação", editora Distribuidora Record, 1947, página 12).
BRASILEIRA, CIVILIZAÇÃO - "Como é hoje esse fundo de cultura ameríndio e africano sobre o qual se forma a civilização mestiça tropical de que somos, no Brasil, a primeira grande e positiva demonstração, tal como na zona temperada foram os ingleses e os franceses, ou na Ásia, absorvendo o que a China, Portugal e as universidades americanas ali desembarcaram, veio ser o Japão. Por isto o Brasil entrará no século XXI como um novo fator de civilização mundial, capaz de absorver toda novidade porque não tem muito lastro a retê-lo senão o medo do seu próprio destino". (Carlos Lacerda, "Em vez", 2a edição, Nova Fronteira, 1975, pagina 173/174).
BRASILEIROS – “Somos um povo sem rancores, cuja alegria nada consegue destruir, cuja esperança nunca esmorece, cuja bravura ninguém domou, cuja honra ninguém escarneceu, cuja fibra ninguém destroçou, cujo entusiasmo ninguém abateu. Somos o povo que rechaçou o invasor e a coligação de nativos com ele. Somos o povo que fez a luta da independência, completando os esforços dos mineiros, antecipando-se aos dos baianos, consolidando os dos paulistas do Ipiranga. Somos o povo que fez as lutas da Maioridade e da Regência, apoiando e dando ressonância aos dos nossos irmãos do Pará, do Maranhão, do Rio Grande do Sul. Somos o povo dos movimentos liberais, que resgatou o sacrifício dos heróis de 42, de São Paulo e Minas Gerais (...) Nosso pensamento profundamente brasileiro, é internacional – porque somos um povo ecumênico, voltado para o nosso tempo, abraçado com o futuro”. (Coligido por Luis Carlos Lisboa, Jornal da Tarde de 03/05/1978, parte tirada de “Uma Rosa é uma Rosa é Uma Rosa”, 2a ed/Record/1966, página 145/146).
BRIGADEIRO – “Eduardo Gomes que até hoje é símbolo de dignidade na firmeza com que sustenta, sem nunca renegá-los, os ideais daqueles dias distantes (*); basta saber, como um dia se saberá amplamente, a atuação que tem tido para conter desatinos e violências, covardias e barbaridades que desonrariam instituições inteiras não fora a sua inabalável força moral”(**) . (“Em vez”, editora Nova Fronteira, 2a edição 1975, página 39). página 04)
BUSTO DESCONHECIDO - "Pois bem, é o único túmulo que existe dentro da Faculdade de Direito de São Paulo. Lá existem dois estranhos. Um é o de Julius Frank que está enterrado num daqueles pátios internos sem nunca ter sido professor catedrático, ou aluno, nem funcionário. Foi criador da Bucha. Outro estranho é a minha cabeça: posei para uma escultora chamada Adriana Janacópolis, que era cantora. Encomendaram a ela uma cabeça de estudante paulista morto na Revolução Constitucionalista e, como não havia nenhum estudante morto paulista disponível no momento, no Rio de Janeiro ela pediu para posar. Eu posei e ela fez a minha cabeça em bronze dourado que está lá no pátio da Faculdade de Direito. Somos os dois estranhos. Só que ele fundou a BUCHA e eu não fundei nada". ("Depoimento", edição Nova Fronteira, 1977, página 88).
CÂNCER – “Mas havia qualquer coisa a crescer no seu (de José Lins do Rego) corpo. Uma sombra como essas que no crepúsculo começam a descer sobre a fulguração do céu. Ele mudava de cor e me parecia como esses estanhos antigos que nos antiquários marcam, no fundo das prateleiras, a presença de uma forma cujas cores, já não distinguimos bem. Esse homem exuberante, das gargalhadas homéricas, dos risos sacudidos, das histórias, das anedotas, dos casos contados em seqüência, trazia pela primeira vez a timidez de quem se cuida e as cautelas de quem pressente o inimigo à porta”. (“Em vez ...” , 2a edição da Nova Fronteira em 1975, página 22).
CANDIDAURA JANIO QUADROS - "Qual o perigo da candidatura Juracy? A UDN oficial, os políticos da UDN, iria adorá-la. Juscelino, instado por Juracy, poderia apoiá-la. Jango, sem saída, talvez a recomendasse, se não preferisse apoiar Jânio e ganhar com Jânio, contra nós. O resultado dessa conjunção seria a manutenção de tudo que o Brasil precisa abolir e o atraso de tudo o que o Brasil não precisa admitir. Não seria uma aliança de forças em torno de qualidades das forças aliadas e sim exatamente, em torno dos seus defeitos. E ainda o perigo do Jânio ganhar a eleição só com o povo, contra essa coligação política, aparentemente invencível. Neste caso somente uma ditadura populista poderia resultar daquele desafio e da vitória. Muito melhor era dar a Jânio um instrumento político e fazê-lo vencer dentro dos quadros normais do processo democrático, não apenas na hora de votar, mas igualmente na hora de governar". (“Rosas e Pedras”, páginas 275/276).
CAPITALISMO SEGUNDO FREUD – “O capitalismo passou a ser explicado pela permanência, no homem, da fase infantil anal, do prazer da retenção das fezes – pois não é certo que elas têm a cor do ouro? Não, não é certo, mas isto não importa para quem faz conta de chegar com excrementos. A prisão de ventre passou a ser a precursora da acumulação de capital – eis a engenhosa teoria que numa espécie de delírio de generalização e explicação, o dogmatismo freudiano pôde chegar”. (“Em Vez ...”, 2a edição da Nova Fronteira em 1975, página 59).
CARAVAMA DA LIBERDADE EM 1960 1 - "Em 1960 estávamos diante de uma sucessão presidencial decisiva e perigosa para as nossas idéias. Juscelino Kubstcheck havia acumulado um capital de popularidade praticamente invencível. Juracy Magalhães procurava se impor à UDN como o único udenista que podia ser apoiado pelo Presidente Juscelino e pelo Vice-Presidente João Goulart. Como presidente da UDN, havia-me recrutado para as caravanas da liberdade, nome sob o qual percorremos juntos todo o Brasil, em experiência memorável que lamento não poder evocar aqui. Do território do Rio Branco (que mudou de nome) onde corremos risco de vida, até Santa Maria da Boca do Monte, o Exército, comandado por Osvino Alves, dispôs soldados para evitar o choque com os homens do Governador Leonel Brizola, a quem se atribuía à promessa de que não sairia com vida do Rio Grande do Sul, fizemos comício em todos os Estados". (“Rosas e Pedras”, 275).
CARISMA – “A idéia que se criou, muito devido ao nazismo e ao fascismo, de que carisma seja sinônimo de fenômeno de uma mística autoritária, é absolutamente falsa. Não conheço nenhuma liderança democrática que não tenha carisma, que não tenha também por isto mesmo um efeito carismático”. (“Depoimento”, página 223).
CARTA BRAND I - "Nessa fase um jornalista de Campos trouxe-me, através de um companheiro da Tribuna, um argentino que dizia possuir carta de João Goulart a um peronista de nome Brandi, falando de legações entre o peronismo e movimento getulista no Brasil. As ligações entre os dois grupos, o argentino, existiram. Ficou provado na Argentina, depois da queda de Peron, que certas transações foram feitas mediante comissão empregada no custeio de operações políticas no Brasil. A carta relatava fatos, cuja substancia era verdadeira. E tinha todo aspecto de carta autêntica. Tanto que as primeiras apurações do grafólogo e do IPM então instituído, sob a presidência do General Maurell Filho, se inclinaram pela sua autenticidade. O argentino não pedia dinheiro por ela e trazia apresentações razoavelmente idôneas. Trouxe a carta a público, então e pedi um inquérito para apurar se era ou não autentica. (...) Consumada a eleição de Kubstcheck, e como vice, João Goulart, a comissão militar chega aa conclusão de que a carta era falsa". (“Rosas e Pedras”, pagina 262).
CARTA BRAND II - "Ao denunciar a existência da carta e a reclamar para ela um inquérito sério, estava sob a impressão de que os fatos relatados na carta eram semelhantes a outros que sabia verdadeiros. Tinha o direito a essa impressão pelos antecedentes, pelas ligações entre João Goulart e o ditador argentino Perón, que eu conhecia, numa afinidade, que ele próprio não negou quando nos encontramos, pela primeira e única vez (*), em 1951. Se o governo brasileiro não tivesse interferido junto ao argentino, que derrubou Peron em 1956, para evitar que este confirmasse as provas que vi nas mãos de alta personalidade argentina; se a maioria, na Câmara, não houvesse abafado o Inquérito Parlamentar sobre a venda do pinho brasileiro (…) Argentina como fonte de receita para o custeio de campanha política no Brasil, como ficou provado em inquérito do governo militar argentino, que negou diplomaticamente o fato" (“Rosas e Pedras”, paginas 262/263) (*) – (Equívoco do narrador. Duas vezes, pelo menos. Uma em 1951 quando foi convidado para escrever o Estatuto do PTB e outra em 1967, no URUGUAI, para formar a Frente Ampla).
CASSAÇÕES - “Afinal, liberto do compromisso imediato com o povo, você poderá cuidar da sua família e conviver, livre e desembaraçadamente, com os seus amigos. Este é o benefício da sua cassação. Quantos aos efeitos maléficos, são piores para os outros, os cassadores, do que para você. E pior, também para o Brasil, pois fica assim provado que a honestidade, a fidelidade, a coragem, são crimes punidos pelas autoridades que, mais do que todas, por sua origem militar, deveriam prezar e preservar tais atributos. A injustiça só diminui o injusto, não a vítima. Esta cresce e avulta na planície. Você sai maior do que ao entrar na vida pública. Pode ser que ela volte. Enquanto isto não ocorrer, fique certo de que deixou um exemplo”. (Carta de Carlos Lacerda ao deputado Mauro Magalhães de 30 de abril de 1969, em “Minhas Cartas e as dos Outros”, edição Unb-Fundamar, 2004).
CASTELO BRANCO I – “Preferia que o senhor Castelo Branco fosse ladrão de dinheiro, pois poderíamos eventualmente perdoar ou obrigá-lo a devolvê-lo. Mas como poderá devolver o que roubou ao Brasil? A oportunidade perdida, a união malograda, a confiança dispersa, a decepção consagrada, a astúcia convertida em ideal revolucionário, a rotina como norma de renovação, a institucionalização da indignidade, a oficialização da intriga, a morbidez da delação e o estimulo à adulação substituindo a dignidade, o estímulo, a esperança e aquela eminente qualidade dos brasileiros, a tolerância?” (“Critica e Autocrítica”, edição Nova Fronteira, 1966, página 35).
CASTELO BRANCO II - "Antes de ir para o Poder nunca vi Castelo Branco protestar, mas se agachar - sempre, recusando-se a participar de todo protesto até o dia em que o protesto serviu à sua vaidade e à sua ambição, que são patológicas porque não são uma afirmação, mas uma compensação. A dubiedade é o traço dominante do caráter desse homem que simulou, a vida toda, o que agora já não esconde, o seu horror à lealdade, o seu gosto pela intriga, o seu fraco pela adulação". ("Crítica e Autocrítica e Carta a um Amigo Soldado”, edição 1966, página 50).
CENSURA I – “Abomino toda censura porque toda censura é abominável na medida que em que cultiva a irresponsabilidade discricionária de uns e habitua à irresponsabilidade , à alienação total a maioria das pessoas, assim privadas do seu dever de tomar partido e tomar decisões”. (Seleção publicada pela revista Manchete n. 824 em 06 de junho de 1977).
CENSURA II – “Para mencionar um só exemplo: daquele jornal que me denunciou à Sociedade Interamericana de Imprensa por uma censura imposta aos jornais, nas horas que sucederam à renúncia de Jânio Quadros, pelo Coronel Golbery do Couto e Silva, então Secretário do Conselho de Segurança Nacional – e hoje, caro amigo, informante e por vezes esclarecido orientador da imprensa amiga. Não cobro as injustiças que sempre me são cobradas. E muitas vezes pago, para me ver livre dos credores. Tenho horror das pessoas que gostam de aparecer sempre como credores”. (“Crítica e Autocrítica”, Nova Fronteira, edição de 1966, página 35).
CÉREBRO I - "A única vez que o assunto me preocupou deveras foi ao ler um livro que recebi, em português, com o título, "O Despertar dos Mágicos". E ali o que mais me impressionou foi a confirmação que não sabemos ainda, para que servem cerca de duas terças partes do cérebro humano. No entanto têm esses dois terços a mesma composição". (Carlos Lacerda, "O Cão Negro”, 2a ed/Nova Fronteira/1971, página 48).
CÉREBRO II – “Que faz aí essa maior parte, estes dois terços do cérebro cuja função se desconhece? Têm a mesma natureza, a mesma consistência, forma semelhante, e aspecto e cor, do pequeno terço cujas funções mais ou menos se conhece: a memória, a palavra, o movimento, etc. Será aquela engenhosa e insuperável precursora do computador eletrônico que acumula os dados do real e do supra real e nos fornece resposta inesperadas, como a transmissão de sensações e pensamentos, a impressão de já ter visto, mistura de passado e futuro, premonições?”. (“Crítica e Autocrítica”, editora Nova Fronteira, página 21).
CHALEIRISMO – “Se alguma coisa me dá medo é o incondicionalismo. Medo é pouco. Devo dizer: pavor. Já o experimentei em todos os degraus da vida. É envolvente, vertiginoso, abissal. Comporta toda sorte de desenvolvimento. No plano pessoal, chamou-se no Brasil, “chaleirismo”. Dizia-se, pegar na chaleira o fenômeno pelo qual uma pessoa se prostra diante de outra e a adula, a incensa, a corrompe pela lisonja. ( Haverá nada mais corruptor do que a lisonja? ) Hoje o fenômeno tem a denominação local de “puxada”. Chama-se “puxa” ao gajo que destrói a resistência moral do seu superior, ou do seu igual, pela erosiva ação do adjetivo laudatório, dos substantivo que afaga a vaidade, lambe o ego e transforma em narciso qualquer criatura enfraquecida pelo incessante desmerecimento da modéstia”. (“Em Vez...”, 2a edição da Nova Fronteira, em 1975, página 15).
CINEMA – “Onde está o limite da arte e o limite da sordidez? Não é assim tão difícil distinguir; mas muitos acham. Entretanto quando se trata auxílio do Estado, quando se trata de dinheiro da comunidade – pois o dinheiro que o Estado dá é do povo – é então necessário que o cinema contribua para melhorar e não para piorar o povo. Não é preciso que o cinema seja moralizante, que o cinema seja angelical, que o cinema seja um substituto da missa. Trata-se de impedir que o cinema seja um sucedâneo do bordel. Trata-se de permitir que os filhos do cidadão possam ir ao cinema sem voltar para casa querendo matar seus mais ou violentar a sua primeira namorada”. (“Palavras e Ação, editora Distribuidora Record, 1966, página 158).
CIVILIZAÇÃO CRISTÃ - "a noção de que existe em cada ser humano uma Pessoa e intocável, é em sua essência, a grande contribuição do cristianismo, desde sua origem mosaica à iluminada civilização, grandiosa mas pouco generosa, fascinante mas injusta, que nos legaram a Grécia e de sua primeira filha de fala latina e pretensões mundiais, a civilização do império romano". (Carlos Lacerda, "Em vez", 2a edição, Nova Fronteira, 1975, pagina 172).
CLONAGEM - "Ignorante como sou em eletricidade, custa-me muito menos atribuí-la a Deus do que ao eletricista que, juntando dois fios, produz um faísca apenas menor do que a que fulgura entre nuvens no espaço. Por que hei de acreditar que o eletricista é capaz do prodígio de ligar o positivo e o negativo e fazer luz, e não em Deus, que produziu o eletricista? Pode-se gerar um ser em laboratórios, é quase certo. E daí? Com isto conseguimos muitos resultados, até o de tornar desnecessário o esforço atualmente despendido para gerar novos seres. Mas não se terá demonstrado a inexistência de Deus. Tantas têm sido as provas testemunhais, entre as quais algumas fizeram de mim, testemunhas vivas - nas quais - por força - tenho de acreditar que já é habitual conviver com o fenômeno." (Carlos Lacerda, " O Cão Negro", editora Nova Fronteira, 1971, páginas 49/50).
CNBB - "E então aparece aqui ou ali uma voz cristianíssima que diz: não devemos mais salvar as almas por enquanto, as almas não se salvam sem o corpo, devemos sim, fazer cooperativas! Recém chegados da casa dos ricos, tomaram um susto ao descobrir a pobreza, e a renegam a pretexto de a protegerem". ("Palavras e Ação", Editora Distribuidora Record, 1966, página 91).
COISA PÚBLICA – “A incapacidade de distinguir entre os sentimentos particulares e a função pública é a parte do nosso subdesenvolvimento moral e político que faz muita gente confundir suas conveniências particulares com o interesse público”. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 53).
COMEÇO DE TUDO - "Tudo isso começou há muito tempo, na madrugada de 5 de agosto de 1954, na rua Toneleros. Ali começou uma verdadeira revolução. É por isto que ninguém pode me silenciar. É por isto que tenho autoridade para dizer que, de tantos sacrifícios, há que aproveitar a lição, com grandeza, com inteligência e dedicação. É impossível nos limites de algumas páginas o relato de um episódio que tem origem muito antes e se projeta muito anos adiante. Nem o simples relato seria possível, tantas retificações tenho a fazer a versões facciosas, a acusações sem fundamento, a interpretações funambulescas. O que interessa no relato sumário de 1954, no atentado da Toneleros, no suicídio de Vargas, é mostrar que de tantos sacrifícios, de parte a parte, têm que resultar algo útil para o povo. Não pode ser demagogia e nem saudosismos. Não pode tudo isto tratar-se de um encontro de contas de ódio e o ressentimento. Se alguma coisa pode tudo isto deixar de útil, é na lição de compreensão, de união, de esforço conjugado para libertar o povo brasileiro da ignorância e da miséria. É ensinar-nos a ensiná-lo a identificar, sob os nomes que os jornais publicam, os interesses que sob tais nomes se escondem, e que movem tantos acontecimentos e comandam tantas omissões". (“Rosas e Pedras”, paginas 257/258).
COMUNICAÇÃO – “Comunicação quer dizer, também, comunicação de e não apenas participação a. Não se trata de dizer: povo, estamos fazendo isto e aquilo e sim dizer ao povo: sem você não podemos fazer isto nem aquilo. Comunicação não é aviso e nem portaria para forçar aceitação. É aliciamento e mobilização para obter participação”. ((Seleção afirmações de C.L. publicada pela revista Manchete n. 824 em 06 de junho de 1977).
COMUNIDADE AFRO-LUSO-BRASILEIRA – “Está na hora do Brasil mostrar que é amigo de PORTUGAL. O Brasil pode e deve assumir a posição de líder da grande comunidade de países de língua portuguesa. Uma comunidade afro-lusa-brasileira, em termos nacionais e internacionais trará incalculáveis benefício”. (Páginas amarelas da Revista Veja de 08 de dezembro de 1974).
COMUNISTA I – “Como pecado, não, pois não me arrependo de ter sido simpatizante. Aprendi muito com os comunistas e, ainda, hoje, emprego contra eles práticas que eles me ensinaram. Não se pode chamar um homem a vida toda de comunista só porque ele o foi na juventude. Isso me dá um ar de juventude e eu fico muito honrado”. (“Palavras e Ação”, editora Distribuidora Record, edição 1966, página 144).
COMUNISTA II – “Não sou anti-comunista, como dizia Prestes, por ódio zoológico. O que não admito é a complacência com os comunistas, dessa gente que quer medir o seu grau de “convicção” democrática por sua maior ou menor aceitação dos comunistas. Como considero o movimento comunista anti-democrático, não meço o meu grau de amor, de dedicação e sinceridade democrática, pela maior ou menor complacência que eu tenha pelos comunistas, como da mesma forma, sempre agir com os fascistas. Evidentemente acho que incompatíveis com a democracia, o que não os impede de viver, de ter as suas idéias e tentar convencer o povo de que as suas idéias são as melhores” (“Depoimento”, página 224)
COMUNISTAS III – “Um comunista democrático é um bicho que não existe. Todo comunista é, por definição, totalitário. Tolerá-lo é necessário. Mas obrigá-lo a nos tolerar é indispensável. É preciso que ele não se apresente nem como o único e nem como o melhor campeão da liberdade, pois, o regime comunista é incompatível com a liberdade”. (Seleção publicada na Revista Manchete de 6/06/1977, n. 824)
COMUNISTAS IV – “ Que fará o senhor com os comunistas? – Não os aprisionarei no comunismo. Dar-lhes-ei oportunidade de deixarem de ser comunistas. Na maior parte dos casos eles o são sem saber bem o que seja, ou sabendo o que ele é, não sabem o que é democracia. A impaciência e o desespero levam pelo menos muita gente para o comunismo quanto o ceticismo e a disponibilidade”. (Revista Manchete n. 607 de 7 de dezembro de 1963, página 115).
CONFISSÕES – “Tenho pudor das confissões completas. Não deixa de ser uma forma de hipocrisia, acusar-se em público do que se fez e não se fez, apenas para que se saiba quanto se é humilde. Prefiro ser mal julgado mais por falta do que por excesso de explicação, será talvez uma forma encabulada de meu orgulho”. (“Critica e Autocrítica”, edição Nova Fronteira, sem data, página 31).
CONGRESSO - "O povo não é melhor do que o Congresso e o Congresso não é melhor e nem pior do que o Exército. Pense um pouco para ver que tenho razão. Somos o que somos porque ainda não pudemos ser o que devemos ser. Portanto em vez da intolerância passiva e da brutalidade ativa, ponha as armas a serviço da inteligência, em lugar da tolice, ainda mais do que o erro, de pretender coagir a inteligência pelas armas. Você precisa explicar aos demais que a inteligência é invencível - e que é melhor aliar-se a ela do que desonrar-se contra ela". ("Crítica e Autocrítica - Carta a Um Amigo Soldado”, editora Nova Fronteira, 1966, página 58).
CONVENCIMENTO - "Faz parte do meu testemunho esta convicção que assim exponho. Se morresse amanhã, gostaria que fosse este o resumo do que justifica a minha vida pública. Entendo que é necessário aproveitar tudo o que de útil foi feito em todos os governos. Mas a razão pela qual combati os do meu tempo não está nos homens nem nas instituições, nem mesmo nas leis e nos costumes, está na estrutura da vida e da sociedade nacional. Ela assenta na ignorância e na improdutividade. Ela se rege pela minoria, seja esta a oligarquia política ou a tutela militar, ou uma e outra combinadas, mas sempre minoria que mais atende a interesses de terceiros do que aos interesses, não apenas imediatos, mas permanentes, do povo. Este designa representantes, não procuradores com plenos poderes. O povo precisa de líderes, não de mentores. Disto me convenci cada vez mais. A origem dessa convicção está na observação dos fatos e na convivência com a realidade, à qual me abracei como quem se atira numa sarça ardente. ("Rosas e Pedras do Meu Caminho", página 117).
CONVERSÃO I – “A conversão é o grande fato novo e fecundante numa vida que se esterilizava nas falsas certezas, na pseudo tranqüilidade, no conservantismo que se considera revolucionário só porque é contra o lucro sem ser contra a desumanizarão da vida ou conservador porque defende a livre iniciativa mas não defende a liberdade”. (Júlio Tavares (pseudônimo de Carlos Lacerda, no prefácio de “Deus existe. Eu o encontrei” de André Frossard).
CONVERSÃO II - "Sem saber, quase sem sentir, estava preparado para a conversão. O meu catolicismo de menino não resistira às primeiras leituras e às primeiras pretensões. A desarmada fé dos simples era pouca e se acabou. A pompa dos complicados, com a sua armadura de argumentos e seu orgulho, de transformadores do mundo ("os filósofos têm tentado explicar o mundo, trata-se agora de transformá-lo"), tomou o lugar daquela devoção meio monótona, meio automática, mas constante e pura, como cheguei à primeira comunhão. Desaprendi de ajoelhar. Ia percorrer um longo e difícil caminho para reaprender este gesto simples - em que doem os joelhos desabituados, mas ainda mais a alma a que negamos o direito de existir e clama em nós, do fundo do portão em que a deixamos prisioneira". ("Rosas e Pedras do Meu Caminho", página 206).
COQUETEL – “Não faço questão, por exemplo, de ir a coquetéis. Confesso que raramente me diverti em um deles e assim mesmo só quando ele resulta em um jantar com os retardatários geralmente melhores do que os que saem primeiro, ao menos na opinião dos que ficam. O coquetel é uma forma cansativa de falar muito sem dizer nada, ver muita gente sem conhecer ninguém, conhecer estranhos desgostando os amigos e sem as efusões, cuidados e vagares que o brasileiro exige como prova de amizade”. (“Crítica e Autocrítica”, editora Nova Fronteira, página 15).
CORÇÃO - "A certa altura, Gustavo Corção apareceu-me como um guia fraternal. No dia em que escrevi estas linhas: "É difícil voltar sozinho, com os pés sangrando, para a casa de Deus. Sem apoio. Sem a companhia dos avançados". Corção replicou: "Eu quero dizer que aquelas três linhas me abalaram como um soco". Ficamos assim como dois combatente, quase como dois inimigos. Desconfiados. Cerimoniosos. Admirativos. Circunspetos. Cavalheiros. Como antigos combatentes que de longe ficam a decifrar as cores e os símbolos dos brasões antes de se decidirem pelo bom combate." (Rosas e Pedras, páginas 182/183).
CORRUPÇÃO I - “Por falar em corrupção nunca entendi o desprezo que os progressistas e evoluídos manifestavam pela nossa preocupação moralista. Pois a corrupção, sobre ser uma força desagregadora que desmantela todos os programas, é o mais grave dos desperdícios e por isto os regimes realmente progressistas a punem”. (“Crítica e Autocrítica”, ed/Nova Fronteira, sem data, página 28).
CORRUPÇÃO II – “Pois a corrupção existe no governo da revolução. Pior do que antes, porque disfarçada e agora protegida pela falsa virtude e pela censura virtual que coage o País. O menos que se pode dizer é que este governo é também subversivo. Pois o Congresso e as leis dependem de sua vontade pessoal. E não há maior subversão da que coloca 80 milhões de criaturas à disposição da vontade de um só. O poder pessoal é a subversão e, além disso, podridão moral”, (“Carta a um Amigo Soldado em Crítica e Autocrítica”, edição 1966, Nova Fronteira, página 41/42).
COSTA E SILVA - "Soube que junto ao senhor Costa e Silva há cretinos pensando que estou falando na necessidade de sua posse imediata como manobra política para me aproximar dele. É preciso parar com esse mau costume de confundir as pessoas. Você bem sabe que não preciso me aproximar de ninguém, pois sei dizer a distância o que preciso que ouçam os poderosos deste mundo instável - que já vi rodar tantas vezes. Não tenho confiança no senhor Costa e Silva. Acho-o leviano com as suas relações, deslumbrado e despreparado. Terei uma grata surpresa se ele receber a "graça de Estado" e melhorar. Mas acho-o até aqui muito ruinzinho, ambicioso e oportunista: receio que o seu governo seja o jubileu da corrupção" ("Crítica e Autocrítica - Carta a Um Amigo Fardado", editora Nova Fronteira, 1966, páginas 56/57).
CRISES ECONÔMICAS – “Exemplos mais expressivos de empirismo e pragmatismo de ação no combate de crises econômicas se encontram nos líderes que enfrentaram as duas maiores crises do século: o dr. Schacht e Roosevelt. A imaginação do primeiro inventando fórmulas mágicas, é que livrou a Alemanha da inflação que a desagregara (e ele conta a proeza no livro que se chama significativamente “Memórias de um Mágico”). E o New Deal foi essencialmente uma política empírica, oportunista, improvisada – conduzida genialmente por Franklin Roosevelt para reerguer os Estados Unidos do fundo do abismo da depressão”. (“Brasil entre a Verdade e a Mentira, edição Bloch de 1965, página 75).
CRÍTICA – “Não são meras palavras. Recuso-me à linguagem da nova retórica que consiste em usar algarismos com a leviandade com que os demagogos usam adjetivos. Não brinco com os números fazendo malabarismo com das estatísticas. Não me limito a condenar. Analiso e concluo. Não faço crítica pessoal. Mostro fatos. Sou obrigado também a mostrar a impropriedade do pretensioso “Programa de Ação Econômica do Governo, o PAEG. Sim, o programa econômico do governo não existe porque desmentidos pelos seus próprios executores e destruído pelos fatos, como provarei”. (“Brasil entre a Verdade e a Mentira”, editora Bloch de 1965, página 22).
DANTE - "Era um mundo no qual esse político oportunista e fraco, o Dante, na Comédia que "os pósteros chamaram divina" (como dizia meu mestre Afrânio Peixoto) num dos Cantos do Inferno condenava ao suplício eterno os faltos de inteligência; mas não chegou a perceber a irrupção de um mundo novo naqueles feudos a que serviu e que afinal o baniram". (Carlos Lacerda, "O Cão Negro", 2a Ed/Nova Fronteira, página 61).
DAVID NASSER - "O que o leva a julgar-me sem amigos, é a circunstância, esta sim, realmente rara e difícil, de ter sido um homem que se decidiu a perder amigos para conservar aquilo que justifica a amizade. Não é uma frase, David, é uma experiência dolorosa e profunda. Quando me afastei dos comunistas, junto aos quais passei grande parte da minha adolescência, vi-os voltarem-me a cara, deliberadamente, por ordem do Partido Comunista, odiarem-me por ordem superior, passarem a me difamar, a inventar versões que até hoje, periodicamente reeditam, toda vez que pretendem destruir as idéias que defendo e os princípios que represento". ("Palavras e Ação", edição Distribuidora Record, 1966, páginas 97/98).
DECARTES - “Até hoje estou convencido de que um dia o mundo ocidental vai fazer com Descartes o que os chineses estão fazendo com Confúcio. Vai destruir a lógica cartesiana. Porque a única lógica que pode reger a sociedade é a lógica hegeliana, que dizer, o mundo dá saltos e as coisas de fazem por teses, antíteses e sínteses. E não por meras armações de silogismos. Descobri essas coisas na minha solidão”. (Entrevista nas páginas amarelas da revista Veja de 8 de maio de 1974).
DECISÃO – “Deixo os assuntos repousarem até que surge a solução, ou se criam as soluções para constrói-las. É essa decantação que alguns chamam, impropriamente, de impulso. A precipitação existe, mas não é isto. É apenas imprudência. Divina imprudência, que dá gosto de vida até a hora da morte. E prudência consiste em ser corajoso bastante para parecer até temerário, nunca omisso. Omitir-se é uma qualidade invejável. Como não sou invejoso, deixo essa qualidade a outros”. (“Critica e Autocrítica”, edição 1966, Nova Fronteira, página 38).
DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS – “declaro a convivência um exercício de paciência. A dor, uma certeza, senão a única, pelo menos a que mais se faz sentir. O dia seguinte, uma experiência nunca aprendida. A decepção uma possibilidade, de todas a mais provável. A experiência, uma lição sempre esquecida. Declaro a nostalgia a única fonte de alegria genuína, porque feita de sabedoria e prudência, impregnada de moderação e cautela. Declaro a ingratidão o mais constante, o mais freqüente, o mais certo prêmio da dedicação. E a traição o único título de glória a que se pode almejar quando se é vítima, o de que se pode vangloriar quem a pratica, pois, neste caso, paga o prêmio”. (“O Cão Negro”, editora Nova Fronteira, 1971, página 13/14).
DEFENSORES DA CIILIZACAO CRISTÃ - "A maioria do povo, desiludida desde a renúncia de Jânio Quadros e brutalmente chocada com o rumo que tomou o Governo Castelo Branco, nem por isto deseja voltar ao passado. O choque que esses dois bons governos, de gente considerada honesta e razoável, defensora da civilização cristã, deram nos brasileiros, atordoou-os. Agora é que está passando. Então se compreende de todos os lados, o alcance e a importância do entendimento que fizemos, Kubstcheck e eu, desarmando o que poderia ser o revanchismos e também desarmando a estupidez de uma revolução encarada como mera expedição punitiva. Esse ato de um novo Brasil só produzirá todos os seus efeitos quando os ruminantes de sempre se deglutirem ou a sua espécie se extinguir. (“Rosas e Pedras do Meu Camnho”, página 296).
DEMAGOGIA I – “É preciso dizer que a pior tirania é a demagogia e, pois, não haverá maior tirano do que o demagogo. É preciso dizer que a democracia só sobreviverá quando acabar com a demagogia, pois esta é a doença que a destrói. Mais do que foi o nazismo, na década de 30 a 40, quando parecia tomar conta do mundo; o comunismo é uma ameaça mundial que se faz sentir dentro de cada nação”. (seleção de Luiz Carlos Lisboa, Jornal da Tarde de 03.05.1978).
DEMAGOGIA II - "Se morresse antes da hora e tivesse que deixar uma receita para outros a aplicarem melhor do que eu, esta seria dividida em duas partes, como os remédios dos quais se toma primeiro a pílula branca e depois a cor-de-rosa. Ao povo diria: "Desconfie do democrata que não se prepara para a responsabilidade de governar. Ou é demagogo ou incapaz; ou nem sequer é democrata". Para que não haja equívocos, acrescentaria: e desconfie ainda mais dos ditadores nessas mesmas condições. Pois estes, se chegarem a ser, nunca passarão de ditadores. Aos que pretendem governar, diria: "No se esqueçam de levar na bagagem a imaginação; e de combinar o senso de autoridade do cargo com a humildade da pessoa que o exerce". ("Rosas e Pedras do Meu Caminho”, paginas 295/296).
DEMOCRACIA I – “Continuar. Insistir. Quem disse que a Democracia é fácil? Quem disse que a luta e a vitória dependem de um só homem, de uma só campanha? Continuar. Estas palavras, pois, não são finais”. (“O Poder das Idéias”, página 337).
DEMOCRACIA II – “um verdadeiro democrata não tem ideologia. A democracia comporta exatamente uma variedade de soluções para os problemas, que vai das medidas socializantes às do liberalismo, conforme as circunstâncias, o tempo histórico, as necessidade e as limitações. Há, neste sentido, no democrata, uma disponibilidade, uma disposição de procurar as soluções sem preconceitos nem prevenções, que é precisamente o contrário do que se enquadra num sistema, numa ideologia”. (in Revista Manchete n. 607 de 7 de dezembro de 1963, página 114 e em Luiz Carlos Lisboa, Jornal da Tarde de 03.05.1978).
DEMOCRACIA III – “Creio que a Democracia não é compatível com a ideologia. Pode-se ter uma doutrina, deve-se ter um programa, mas é necessário guardar, diante dos problemas, uma disponibilidade em relação às soluções, sejam elas socializantes ou liberais, de acordo com os dados do problema especifico, de acordo com a conjuntura, e visando ao bem publico e não segundo premissas ideológicas que nos prendam ou nos tolham os movimentos”. (“Palavras e Ação”, editora Distribuidora Record, 1966, página 140).
DEMOCRACIA IV - “A rigidez da ideologia retira à democracia, que não é um sistema acabado, mas um processo de evolução social e político, o seu melhor instrumento, a flexibilidade no estudo e solução dos problemas nacionais e mundiais”. (Discurso proferido na Convenção da UDN aceitando a sua frustrada candidatura à Presidência da República)”.
DEMOCRACIA V – ´ “A democracia é um processo em constante aperfeiçoamento ao qual o povo ascende à medida que se educa e adquire condições para se governar. Daí a importância de se educar o povo, para fazer progredir, e não regredir a democracia” (...) “Escola para todos é o único meio válido de se chegar a uma democracia e de promover o desenvolvimento verdadeiro.`para a prosperidade de todos e não apenas o enriquecimento de alguns”. (Trechos do discurso na convenção da UDN para aceitar a sua frustrada candidatura à Presidência da República).
DEMOCRACIA VI - "Entendo que uma democracia só vive quando o povo a estima e a defende. Entendo que o Povo só estima e defende o regime democrático na medida que o conhece, tudo o que se arma contra ela e tudo que pode ser preparados a seu favor. (....) Não pretendo impor coisa nenhuma, mas não abdico do meu direito de propor. Não pretendo humilhar ninguém, nem desafiar autoridade superior ou igual ou inferior. Mas tenho neste país autoridade para falar; tenho-a porque a conquistei com sangue e sacrifício, meu, de meus companheiros, dos meus concidadãos. Tenho, atrás de mim, antes de ser governo, 16 anos de oposição, sem a falta de um dia. Tenho, portanto, algum lastro e algum direito de ser ouvido, antes que isto se transforme numa ditadura". (“O Poder das Idéias”, Distribuidora Record, página 317).
DEMOCRATA – “Começo por sustentar que um verdadeiro democrata não tem ideologia. A democracia comporta, exatamente uma variedade de soluções para os problemas, que vai das medidas socializantes às do liberalismo, conforme as circunstâncias, o tempo histórico, as necessidades e as limitações. Há, neste sentido, no democrata, uma disponibilidade, uma disposição de procurar soluções sem prevenções e nem preconceitos, que é exatamente do que se enquadra um sistema, numa ideologia”. (“Palavras e Ação”, editora Distribuidora Record, 1966, página 178 e Revista Manchete n. 607, página 114)).
DEMOGRAFIA – “A explosão demográfica, isto é, o nascimento de grande número de crianças, num país que não pode contar com legiões de imigrantes, esses beneméritos que precisam ter, quando naturalizados, direitos iguais aos de seus filhos, é uma benção e não uma ameaça”. (Trecho do discurso na convenção da UDN para aceitar a frustada candidatura à Presidência da República).
DERRUBADOR DE PRESIDENTES – “Derrubar presidentes? Eis uma acusação que decorre da necessidade de sínteses a que se vêem obrigados os repórteres internacionais, para dar no menor número de linhas, o maior número de informações tumultuadas sobre este país tumultuoso. Por imitação alguns brasileiros tomaram a deixa. Derrubar presidentes? Neste caso reconheça-se que não os derrubei sozinho. Foram meus cúmplices as três corporações militares, numerosos cidadãos pacatos, provectos beneficiários dessas derrubadas. Fiquei eu só com a fama e sem sequer o respeito, quanto mais o proveito. Os sujeitos que subiram à minha custa, ou à custa de me traírem, são os meus piores senão os únicos inimigos”. (“Crítica e Autocrítica”, Editora Nova Fronteira, 1976, páginas 33/34).
DESENVOLVIMENTO I - "Cria-se, assim, o círculo vicioso. O país não se desenvolve porque não o deixam desenvolver-se livremente, nem o ajudam suficientemente para tanto. E como não se desenvolve, permanece em estado de menoridade. Sua elite política torna-se cada vez mais escassa e incapaz. Em conseqüência, perde até a capacidade de contornar e resolver, mesmo a título precário, as crises provocadas por sua incapacidade e subserviência a tais interesse" ("Rosas e Pedras do Meu Caminho", páginas 115/116).
DESENVOLVIMENTO II - "O Brasil, por suas responsabilidades e exigências tem de ser um país de imediato desenvolvimento, não apenas de fábricas e negócios, senão e ainda mais rapidamente, de um povo cuja formação para cidadania seja intensificada. Isto não se faz somente pela alfabetização, mas somente quando a alfabetização for apenas parte e conseqüência de um processo educativo básico, que forma personalidade do indivíduo, a capacidade do produtor, a consciência social do cidadão, a formação moral do homem, para a qual os governos têm de contribuir sobretudo com o exemplo". (“Rosas e Pedras”, pagina 116).
DEUS I - "Por exemplo, a existência de algum poder superior e primeiro, a que se dá o nome de Deus. Não sei provar, e não acho fácil alguém provar a existência de Deus. Mas ainda mais difícil é comprovar a sua inexistência". (Carlos Lacerda, "O Cão Negro", ed/1971/Nova Fronteira, página 49).
DEUS II – “Acredito Nele principalmente por causa da vida, muito mais do que pela morte pela qual tenho muito mais desamor do que temor. O que Deus realmente criou foi a vida, principalmente a vida eterna. A morte é um curto intervalo só para mostrar que a vida ainda não acabou”. (“Crítica e Autocrítica”, edição Nova Fronteira, s/data, página 24).
DEVER I– “Não perdi o senso lúdico, isto é, o gosto de fazer por gosto o que os outros chamam simplesmente cumprimento do dever. Dever sim, mas por gosto, quase diria, por divertimento.” (“Crítica e Autocrítica”, editora Nova Fronteira, página 17).
DEVER II – “Procurei, mas sei que em vão, fixar essa noção do sentimento do dever apesar da inutilidade do seu cumprimento. Ou até por causa dessa relativa inutilidade, pois se fosse rendoso, muitos o cumpririam – e podíamos, alguns, deixá-lo a muitos. Não falta quem queira sacrificar-se pelo uso dos automóveis oficiais, dos aviões oficiais, do peru com farofa oficial, no crachá na casaca oficial, no emprego para o genro, a sinecura do filho – como são tocantes os pais de família que zelam pela própria à custa alheia”. (“Crítica e Autocrítica”, editora Nova Fronteira, 1976, página 31).
DIREITOS HUMANOS - "Se a gente ficar discutindo apenas os direitos humanos nunca teremos coragem de abordar o problema como um todo. Por exemplo: O Brasil hoje é um país profundamente injusto, não só porque se torturam pessoas ou porque se prendem pessoas, um país profundamente injusto porque de um lado tem um grupo com direito de lucrar o que quiser, contando que o governo se associe a esse lucro, e de outro lado tem gente que não tem acesso à riqueza. Não se trata de distribuição de riqueza, mas de nenhum acesso a ela. ("Depoimento", editora Nova Fronteira, 1977, página 57).
DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO – “Isso foi há pouco mais de meio século. Meu principal esforço na Câmara foi converter em lei, afinal, em 1961, o projeto de lei de Diretrizes e Bases da Educação 15. Para isto, tive de negociar a autoria do substitutivo, que deixou de ser meu para ser de ninguém, como único meio de obter o voto de bancadas que preferiam manter a educação amarrada a ver uma lei de educação com o meu nome.” (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição Fundamar-UnB, 2001, página 30).
DIRIGENTES – “O que me preocupa, Senhor Presidente, é o subdesenvolvimento da inteligência, é a crise dos quadros dirigentes, sempre menores do que as necessidades nacionais e tomados por uma timidez quase mórbida, com a incapacidade de ousar, com horror à audácia a disfarçar-se em habilidades infecundas. A preocupação de esconder sob um ar grave de prudência e de equilíbrio de poder, o pavor da responsabilidade de decidir e ousar”.[2] (“Palavras e Ação”, editora Distribuidora Record, 1966, páginas 175/176).
DISCURSO I – “Sempre o melhor discurso é o que nunca se fez. Uma idéia nem sempre chega a se traduzir em sons. Nem por isto é menos atuante, por vezes decisiva: a idéia que não tomou forma ou se transformou em ato”. (“O Poder das Idéias”, edição Distribuidora Record, 1962, página 09).
DISCURSO II - “E até hoje creio que se aprende mais a falar, lendo o Eça, grande desemburrador e o Machado de Assis, cujas hesitações nos desabituam das retumbâncias das afirmações, de ambos os quais convém de vez em quando fazer uma estação de leituras – como se fossemos a uma Araxá mental. Posso mesmo afirmar que para falar bem o melhor é ler bem, o que os outros escrevem”. (“Uma Rosa é Uma Rosa é uma Rosa...”, 2a edição da Distribuidora Record, 1966, páginas 133/134)
DITADURA - “A ditadura (a de Getúlio), a longa ditadura. Hoje em dia com o tempo não se pode dizer que tudo nela foi ruim. Seria um exagero. Mas ela teve de fundamentalmente ruim uma coisa que me horroriza: a alienação de todas outras gerações para o fato político. Nós tivemos que enfrentar o problema de uma estrutura ditatorial que cristalizou a adulação, a corrupção, esta não só no sentido do dinheiro, mas no sentido dos caracteres e das idéias. Foi uma deseducação do povo brasileiro e principalmente da juventude que foi quase alienada. Isto me conduziu para a política”, (Páginas amarelas da revista Veja de 08 de maio de 1974).
DITADURA I - “Em 1930 a ruptura se completaria, abrindo, em novo ciclo, a era de nova oligarquia que teve no Estado Novo o seu triste viveiro, no qual até hoje desova. O Estado Novo foi um hiato pelo qual o Brasil até hoje um duro preço. Quanto pagará por novas interrupções da vida pública?”. (“Em Vez ...”, 2a edição da Nova Fronteira, página 34).
DITADURA II – “Por outras palavras, não se pode ao mesmo tempo defender a crença em Deus e suprimir a liberdade, pois, sem liberdade Deus não existe. Toda ditadura conduz ao mais esterilizante materialismos e é por isto que toda ditadura precisa inventar um sucedâneo para fé, no culto do Chefe, ou da Nação ou do Patriotismo, o mais tolo, o mais tacanho, o mais estúpido – esse que faz da pátria um ídolo que exige vítimas ou uma vitima que exige ídolos”. ( “Em vez”, 2A edição Nova Fronteira, 1975, página 92).
DITADURA MILITAR I - “O que me atormenta é pensar no julgamento dos seus filhos sobre o papel que o pai desempenhou no esmagamento do caráter da sua Pátria, no acovardamento pela ameaça da força, na violência contra a dignidade dos próprios irmãos. Triste vitória, vergonhosa vitória seria essa do Exército contra o povo, ele que é uma delegação do povo, ele que não pode ser senão uma emanação do povo”. (“Carta a um Amigo Fardado”, editora Nova Fronteira, sem data, página, 46).
DITADURA MILITAR II – “O terror veio quando começaram a matar os líderes que tiveram o dom de animar a mocidade, despertando-a do antigo desinteresse. Hoje ela tem a alma em fúria e as mãos desocupadas. E não são apenas os párias, os miseráveis. É a mocidade afluente. (“Em vez”, Nova Fronteira, página 219).
DITADURA MILITAR III - "Entre os nossos melhores amigos militares, com raras exceções, ainda havia muitas ilusões. Alguns tentavam neutralizar o que chamavam "as intrigas", na realidade muito mais graves do que isso, pois não eram intrigas, eram um propósito deliberado e frio de destruição de todas as lideranças populares autênticas, para impor ao Brasil uma tutela pela força, capaz de garantir a política de atraso, de submissão e de reacionarismo alvar, pela qual se prepara, como contrapartida inevitável, agora sim, a subversão completa e revolucionária, se não houver uma revisão dos erros cometidos por todos, em todo os lados, e uma decidida e ampla união para a reconquista da liberdade, da independência e do progresso que foram sufocados". ("Rosas e Pedras do Meu Caminho", edição UnB-Fundamar, em 2001, página 180).
DROGAS – “Qualquer pessoa sabe que o progresso da química colocou à disposição de medicina drogas que podem alterar, para melhor ou para pior, o comportamento humano. (...) A mesma medicação que provoca espasmos pode gerar também o equilíbrio emocional necessário para que uma criatura ultrapasse uma crise aguda e possa, então, esperar pela ação naturalmente mais lenta da terapia de apoio. Pois, bem, muitos psicanalistas recusam-se a admitir o uso de remédios no tratamento de seus clientes, e neste sentido, influem decisivamente sobre eles, abusando da tutela que exercem como taumaturgos ou dirigentes espirituais”. (“Em Vez ...”, edição 1975, página 65).
ECONOMIA POLÍTICA I – “A política econômica por natureza contingente, por isto mesmo que é uma política. Só tecnocratas presumem o contrário, enfatuados na infalibilidade de sua pseudociência”. (“Brasil entre a Verdade e a Mentira”, edições Bloch, 1965, página 73).
ECONOMIA POLÍTICA II – “Criou-se um tabu que interessa aos charlatães da economia: o de que não pode falar de economia quem não for economista. Isto é falso. O fato de não saber misturar o tempero na panela não nos impede de julgar se a comida está bem temperada ou não”. (“Brasil entre a Verdade e a Mentira”, edições Bloch, 1965, páginas 88/80).
ECONOMIA POLÍTICA III – “A economia política econômica é inseparável da economia geral. Os exemplos de outras nações e de outras conjunturas servem como ponto de referência, nunca de modelos para serem fielmente adotados. A rigidez de uma política econômica só pode ser cadavérica. O planejamento global leva, necessariamente, à estatização ou ao fracasso, pois ninguém planeja aquilo que não pode comandar” (página 12)
ECONOMIA POLÍTICA IV – “Nenhuma política é certa quando se esquece do ser humano. Uma política econômica que vê com indiferença desenvolver-se o desemprego onde ele não existia; uma política econômica que se conforma com a hipótese de transformar torneiros, ajustadores e metalúrgicos em serventes de pedreiro ou campeadores não têm compreensão humana; não têm sequer sabedoria política pois, não avaliou devidamente o que significa de atraso para o Brasil, irrecuperável por muitos anos, a dispersão de seu pequeno exercito de trabalhadores especializados”. (“Brasil entre a Verdade e a Mentira”, carta ao Presidente Castelo Banco , editora Bloch, 1965, página 26).
EDUCAÇÃO I - "Sustentamos que somente uma Educação primária, suficiente e eficiente, poderá libertar o brasileiro da miséria econômica e da tutela demagógica sob as quais ele é reduzido à condição de pária; sustentamos a necessidade de formar através da Escola três ou quatro gerações que preparem a si mesmas e o País para o evento da automatização industrial, para o advento e a generalização da mecanização agrícola e para as aplicações da eletrônica e da energia atômica, instrumentos atuais com os quais o País poderá dar um salto sobre o grande vácuo aberto no seu caminho de Nação entravada e asfixiada". (Carlos Lacerda, Discurso sobre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação em novembro de 1.957, Diário do Congresso de xxx).
EDUCAÇÃO II - "No ano 2.000 em vez de ensino e EDUCAÇÃO durante apenas um certo período da vida, a EDUCAÇÃO e o ensino se estenderão ao longo de toda a vida, graças a diminuição das horas de trabalho propriamente dita. Seremos todos estudantes como hoje somente alguns podem (e querem) ser" . (Carlos Lacerda, "Em vez", 2a edição, Nova Fronteira, 1975, pagina 177).
EDUCAÇÃO III – “só são verdadeiramente democráticos os governos que procuram educar o povo para a democracia, isto é, os governos que fazem da escola o grande instrumento da revolução democrática”. ( “O Poder das Idéias”, editora Record, 1962, página 184).
EDUCAÇÃO IV – “Ou os brasileiros entendem que têm que fazer a revolução tecnológica na educação, inclusive a irrupção da inteligência na escola para fazê-la em tudo mais, ou não saem do atoleiro, qualquer que seja a política, econômica e financeira de qualquer governo. E aumentando a diferença que nos separa das nações adiantadas, cairemos na dependência geral”. (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 118).
EDUCAÇÃO V – “O povo quer educar-se e ver seus filhos educados. Nenhum programa de apoio conquistará a simpatia do povo se esquecer este ponto. Para tal programa não é preciso tanto dinheiro e nem empréstimo sem reembolso. Não faltam recursos privados, além dos públicos, para esse efeito; e o investimento em educação é o mais urgente e, mesmo politicamente, o decisivo para mobilizar o povo a aderir à Democracia, pelo sentimento de que é parte consciente e atuante dela.” (“Uma Rosa é uma Rosa é uma Rosa é uma Rosa”, Distribuidora Record, 2a edição de 1966, páginas 51/52).
EDUCAÇÀO VI – “O problema da educação no Brasil continua a ser de quantidade e de qualidade, e não de ser o ensino somente público, isto é, dado em escola encarada como órgão do poder público. Os órgãos de que se forma uma comunidade têm direito a se organizar para ministrar ensino a seus filhos. Os pais têm direito de escolher o modelo de educação que querem dar a seus filhos. Estes, apenas atingida a idade da razão, têm também o direito de escolher. Ao Estado cabe fiscalizar essa outra modalidade de educação, para que haja coerência entre as duas. Mas, nunca exercer o monopólio do ensino.”(Carta ao diretor do Jornal de Brasília, em 22 de julho de 1976).
EDUCAÇÃO VII - "A prevalência de interesses estranhos ao povo brasileiro deve cessar. As incursões militares na vida cívica devem cessar. Mas tudo cessará somente quando começar a grande transformação do país, pela educação de seu povo. Não pode, porém, educá-los os que não sabem nem o que significa a expressão, em termos de grandeza, de amplitude, de numerosa significação. Não se trata, absolutamente, de alfabetizar. A simples alfabetização serve a uma ditadura, a um regime totalitário, onde todos os súditos precisam apenas estar preparados para ler o que o governo escreve. Mesmo assim, nos regimes mais ferozmente totalitários a simples alfabetização já não interessa, porque a tecnologia moderna estrangeira logo derrubaria tais regimes". (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição Fundamar-Fub, página 117).
EGOISMO – “Declaro o egoísmo a força social por excelência, de promoção e identificação, que exalta a personalidade e a distingue, reforçando a sadia animalidade do homem libertando-o de vãs, embora atraentes veleidades de solidariedade e fraternização. (“O Cão Negro”, página 14).
ELITE POLÍTICA - "A única dificuldade que encontro para formar um grande partido é a mesma que todos encontram para formar um grande governo. Enquanto o Brasil esticava, a sua elite dirigente encolheu. Existe, mas insuficiente. O povo está melhor do que a sua elite? Penso que sim. Mas o que é certo é que a elite residual não entende mais o Brasil, estou a dizer, não o conhece mais. E a elite nascente não é elite, é uma sofisticação, uma improvisação, uma enfatuarão. A elite se desqualifica culturalmente. Há uma desordem nas idéias e um correspondente tumulto nas ambições que põem em perigo já não apenas a democracia brasileira, mas o próprio País em suas características, em sua personalidade nacional". (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, página 297).
EMPENHOS POLÍTICOS - "O que mais me doeu, no Governo da Guanabara, foi ter de proibir minha Mãe de servir de pistolão, à pessoas tão cruéis ou tão necessitadas, que a ela recorriam porque "mãe só há uma". E muita gente confia na nossa falta de resistência aos apelos do sentimentalismo à custa dos outros, que os fracos confundem com o amor. Tive de lhe falar um dia, seriamente, do desrespeito em que as pessoas, no Brasil, tangidas não só pela necessidade, muitas pelo vício de pedir empenhos, usam mãe, filho, neto, nora, genro, irmão, cunhado, compadre, amante ou namorada, os empregados, os namorados das datilógrafas ou os tios por afinidade das pessoas consideradas importantes, para obter, untuosamente, como favor, o que é um direito; e como um direito, o que não é". ("Rosas e Pedras do Meu Caminho”, página 83).
ENCILHAMENTO – “Cabe aliás, afirmar que há uma enorme diferença entre a política de Campos Salles e Joaquim Murtinho e a do Governo Provisório da República e de seu Ministro da Fazenda, Ruy Barbosa, homem de Estado que teve confiança no desenvolvimento brasileiro. Ruy teve a intuição genial do sopro de progresso que poderia ter feito o Brasil dar um saldo com a República, enquanto o Murtinho, do governo Campos Salles, aplicou a política que no afã de liquidar os excessos do “encilhamento”, por timidez acadêmica, reduziu o desenvolvimento brasileiro nos primeiros anos deste século, a alguns investimentos muito aquém de nossas possibilidades e necessidades. (“Brasil entre a Verdade e a Mentira”, edição de 1966, da Editora Bloch, páginas 29/30).
ENERGIA CARA - “Sei hoje que só há uma energia cara. É aquela que não se tem". (“Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição Fundamar-UnB, 2001, página 112).
ENSINO - "Minha impaciência se aguçou no capítulo dos estudos. Por isso, creio, sempre me preocupei com o tempo que se gasta ensinando e aprendendo, por processos tradicionais, noções que podem, hoje, e devem, amanhã, mais cedo do que se pensa, incorporar a eletrônica, a televisão e outras máquinas aa técnica de educar. A gente passa a metade da vida se preparando para a outra metade. É demais. E a massa a ensinar ultrapassa tudo o que se possa fazer para dispor de pessoas capazes de aprender a ensinar." ("Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição Fundamar-UnB, página 123).
ENSINO PÚBLICO I – “A liberdade de ensino tem muitos inimigos. Inclusive entre aqueles que se julgam amigos da liberdade ou do progresso social. Uns julgam-nos contrários ao interesses da Escola Pública. São os que confundem ensino público com ensino oficial. Público é o ensino accessível a todas as crianças e jovens, sem distinção da fortuna dos pais. Mas para alguns, público é o ensino falsamente chamado “gratuito” pago por todos, com o dinheiro dos impostos. Distinguir o ensino, não pela sua qualidade, nem mesmo por sua quantidade, mas segundo seja ele pago direta ou indiretamente, é uma característica da sociedade que faz do dinheiro a medida de todas as coisas”. (“O Poder das Idéias”, edição Record, 1962, página 185).
ENSINO PÚBLICO II – “Temos no Brasil um sistema de ensino obsoleto e, mais do que isto, deformante e, ainda mais Senhor Presidente, monstruoso, pois não se preparam as crianças para educação segurando-as por duas ou três horas, amontoadas como sardinhas em lata, despertando mais piedade do que entusiasmo, despertando mais apreensão do que esperança. (“Discursos Parlamentares”, edição Nova Fronteira, 1982, página 355).
EROSÃO - "A história do mundo pode ser lida na beira dos barrancos, nas camadas da terra, no seu veio. A erosão deixa-me sempre uma impressão do começo de decrepitude do mundo. Mas também se pode conhecê-la nas árvores, que são terra e luz transformado em lenho. Desconfio sempre que os homens não são senão imitadores das coisas sem alma, e se tem alma, é precisamente para não serem confundidos com as plantas, a pedra ou a minhoca - esse verme inteligentíssimo que se contorce todo até encontrar a terra que lavrou como um arado geodinâmico". (“Rosas e Pedras do Meu Caminhos”, páginas 89/90).
ERRO – “Quero deixar claro: quando se aponta um erro não se é obrigado a propor o certo. Inda mais quando para ser executado por quem foi capaz de propor e executar o erro. Não se pediu para Chamberlain que dirigisse a guerra. Toda questão consiste em saber se se reconhece ou não o erro. Se é reconhecido, identificado, caracterizado, o certo é suprimi-lo. Depois substituí-lo. E agradecer, em vez de censurar quem aponta o erro. Já é um grande serviço apontar erro grave.” ( “Brasil entre a Verdade e a Mentira”, carta ao senhor Presidente Castelo Banco , editora Bloch, 1965, página 39).
ERROS I – “Meus erros, que consistem sobretudo em demasias, permitiram fazer na Guanabara, o governo que fizemos. Eu também fiz parte desse governo – convém lembrar nestas alturas. Dei-lhe algo sem o que ele não teria feito nada, a saber, a coragem de assumir responsabilidades, o grito e o segredo, a impaciência e paciência, a ambição de Santa Teresinha, quero tudo, e a humildade de suportar a injustiça com a certeza do dia em que ela se desfaz, ou mesmo sem certeza alguma. E a insistência de Santa Catarina de Siena, que nasceu no mesmo dia em que nasci e saiu-se de seus cuidados e foi a Avinhão buscar o Papa de baixo de pau: Volte seu Papa, seu lugar é em Roma, haja o que houver”. (“Critica e Autocrítica”, edição Nova Fronteira, 1976, página 36).
ERROS II – “Entre os meus erros, a impaciência com a burrice, que tomo erradamente, talvez, como um vicio imperdoável da inteligência, uma espécie de relaxamento intelectual, uma deformação que acaba se refletindo na cara dos burros e marcando de inferioridade a sua alma enfezada. E a pressa de fazer, como se tivesse um pressentimento de que não tenho muito tempo, o que agora já se converte numa dura realidade. A intolerância, por vezes, com as pessoas, na medida e até quando encarnam, a meu ver, princípios que representam ou renegam. Eis alguns de um repertório imenso de erros, alguns dos quais são nestas alturas dificilmente reparáveis”. ( “Critica e Autocrítica”, Nova Fronteira, edição 1966, página 36/37).
ESCOLA – ” Acredito sinceramente no povo, isto é, na sua possibilidade de melhorar pela experiência, pelo conhecimento. Por isto é que dou tão grande importância à Escola, sem a qual não haverá nunca a democracia . Por isto que em vez de voto para os analfabetos, ofereço-lhes escolas para que eles possam votar sabendo o que fazem.” (Carlos Lacerda, em Manchete 607 em 7 de dezembro de 1963, página 116).
ESCREVER - "Se a vida fosse toda falada era bem melhor. Escrever é uma forma de suplício. Principalmente quando se torna inevitável falar de si. As crianças que às vezes me olham na rua, apontado pelos pais, que nem sempre sei o que lhes dizem a meu respeito, que idéia farão da gente? Não é diversa, penso, da que fiz dos adultos; e até hoje faço. Como os loucos são "os que perderam tudo exceto a razão", os adultos são crianças que perderam tudo, menos a fantasia.” ("Rosas e Pedras do Meu Caminho", edição Fundamar, 2001, página 72).
ESCRITOR I - “Creio ter dito há pouco, que ele (José Lins do Rego) não era daqueles escritores que escrevem bem, se bem escrever é o gosto, muito legítimo, de burilar cada frase e de reduzi-la àquele mínimo dos mínimos, pelos quais se pode dizer que o grande escritor é aquela cujo texto não poderia ser escrito senão pela forma que ali deixa estampada. Jose Lins do Rego era um relaxado no escrever. Parecia às vezes ter gosto do derramamento. Outras vezes cortava brutalmente a frase, no momento em que ela ia alçar vôo nos remígios da imaginação incandescida. Cortava-a voluntariamente, amputava-a, e ao mesmo tempo, quantas vezes, pelo prazer de rematar as características de uma personagem, dava-nos o personagem por inteiro, num breve, lúcida, cortante frase, que nos entrega algumas da figuras definitivas do elenco romanesco do Brasil, com um sentido quase jornalístico da realidade, que faz da sua obra de romancista, por muitos aspectos, ao menos neste particular, uma espécie do Tolstoi da “Ressurreição; seja em seus painéis ou em suas miniaturas, retrata uma época e, projetando-a, tornam-na parte inseparável da realidade de um povo”. (“Em vez ...”, 2a edição da Nova Fronteira em 1975, páginas 20/21).
ESCRITOR II – “Só sei escrever por encomenda, não conheço o prazer da gratuidade – creio que por não me agradar o esforço físico de escrever; em matéria de esforço físico preferiria o mar, se não fosse míope e a terra, com os seus tons de barro, massapé, minhoca e argila, sua idade imemorial, a terra cujos grão nos contemplam e é áspera na mão, a terra sensual, única e mole ou seca e ardente, a terra feita de tantas imolações, tantas inumações, a terra dos defuntos e das ressurreições, a terra das sementes e das flores, do sumo e da brotação, quando o verde a invade e cobre o seu lombo castanho. Não sei escrever para guardar, parece-me inútil ou será simples preguiça, condenável desprezo pelo esforço desinteressado. Talvez isto me facilite ser o oposto do mercenário. Tenho artigos que valeriam fortunas e sossego aparente se os tivesse vendido ou não os escrevesse. Mas o desafio é uma forma aguda de honradez. A desonestidade intelectual , ainda mais assim na sua forma crua, é uma forma como outra qualquer – e ainda pior – de negar a caridade. (“Critica e autocrítica”, editora Nova Fronteira, 1966, página 23).
ESQUERDA DIREITA I – “um certo maniqueísmo malgrado meu, levou-me a servir de instrumento de terceiros, matreiros, sobretudo, reacionários que viam em mim a coisa mais parecida com a esquerda que a direita podia ter ao seu lado. Creio que todos nesse ponto se enganaram, inclusive a esquerda que passou me considerar o inimigo preferencial a destruir, principalmente pelo que tinha de parecido com os seus métodos e táticas”. (“Crítica e Autocrítica”, edição Nova Fronteira, sem data, página 26).
ESQUERDA DIREITA II – “Começo por não acreditar nessa divisão de esquerda e direita que é uma e espécie de maniqueísmo político-social e não atenta para o fato capital da sociologia – que é a irrupção da psicologia, essa ciência imberbe. Acredito sim, na existência de conservadores esclarecidos assim como na de revolucionários burros. Também acredito que existem tendências, uma para se conformar, outra para não se conformar, isto é, para reformar. E isto tem mais a ver com a Psicologia do que com a Economia ou qualquer ciência exata. Pertenço a essa última tendência, a de reformar, mas por repelir a falsa posição de “reformas” para não valerem, caí no conto de uma “Revolução” que não é revolucionária. Sabia que ela era mais conservadora do que se poderia suportar, mas contava que não viesse a ser reacionária. E era. E é. O País se atrasou, em vez de adiantar-se, com essa revolução de “marcha-ré”. (“Crítica e Autocrítica”, edição 1966 da Editora Nova Fronteira, páginas 26/27)...........................................................
ESTADISTAS I –“Uns quantos mitos tomam o lugar das definições exatas. Umas quantas panacéias tratam de substituírem--se aos remédios adequados. Os assessores são indispensáveis. Mas não substituem a necessidade dos estadistas e do bom uso que estes façam da cabeça para aplicar a definição de um francês: governar é escolher”. (“O Poder das Idéias”, editora Distribuidora Record, 1962, página 23).
ESTADISTAS II – “Com largo sorriso perguntou, quem sabe você fará o prefácio também deste? – Teria o maior prazer, disse, mas se pudesse escolher preferiria, porque seria o melhor para os brasileiros, o seu segundo livro, “Profiles and Courage,(*) ensaios sobre momentos decisivos em que certos estadistas arriscam e às vezes perdem conscientemente a popularidade que acumularam, para servir ao povo mesmo contra a vontade do povo. Sempre pensei que a popularidade é um capital que se acumula para gastar em favor do povo e o medo de perdê-la é, às vezes, uma forma de traí-lo”. ( “Uma Rosa é Uma Rosa é Uma Rosa”, Distribuidora Record, edição de 1966, páginas 48/49).
ESTADO DE ISRAEL - "Tempos depois, em novembro de 1947, quando a delegação brasileira, contrariando as instruções do Itamarati para se abster de votar a partilha da Palestina, seguiu a liderança de Osvaldo Aranha, que ocupava a presidência da ONU e favoreceu a criação do Estado de Israel, viajei ao Oriente Médio para o Correio da Manhã e outros jornais. A decisão provocava a guerra no Oriente Médio. Sustentei, certo ou erradamente, o que pensava: que o Brasil devia ter-se abstido de votar a partilha. Por quê? Porque o Brasil, com uma grande comunidade árabe (Sírio-libanesa) e uma numerosa comunidade judia, ao contrário dos Estados Unidos, onde o voto judeu obriga os candidatos a tomarem partido, e da Inglaterra, que estava com um mandato para dirigir a Palestina até o fim, deveria ficar, a meu ver, como um intermediário para a hora da crise, que forçosamente viria. As crônicas que mandei sobre isso estão publicadas num livro intitulado O Brasil e o Mundo Árabe". ("Rosas e Pedras”, página 135).
ESTADO NOVO E OS JUDEUS - "O Ministério da Justiça restringia ao máximo a entrada de judeus. Havia quem negociasse a permissão de entrada de refugiados, vistos em passaportes, o tráfico mais infame. Mas um diretor de Imigração, incorruptível, pelo menos era o que constava, foi o pior de todos, porque era anti-semita. Era mulato, mas racista. Em desespero de causa lembrei-me que conhecia uma médico de Saúde do porto, chamado Fábio Carneiro de Mendonça. Fui ao seu consultório, no Edifício Rex. Nada mais podia fazer. O navio estava de partida. Mas telefonou para o seu colega de Santos, que deu autorização para o desembarque da velha judia de Berlim. Daí veio a minha amizade com o dr. Fábio, depois colaborador da Tribuna e, no meu governo, diretor do Hospital dos Servidores do Estado, homem sincero, capaz, integro, leal e com um raro espírito público". (“Rosas e Pedras”, página 136).
ESTADOS UNIDOS - “De uma sociedade tumultuosa, fundada num ideal de liberdade e de reforma, mas enriquecida na obsessiva e feroz competição, os Estados Unidos evoluíram para uma sociedade de cooperação, iluminada pelo reformismo de seus melhores espíritos. Mas duas guerras mundiais, a segunda ainda mais, puseram a metade do mundo à mercê do Império Americano tal como é, generoso com as sobras, mas agarrado aos privilégios dos grupos que o dominam”. (“Em vez”, editora Nova Fronteira, página 211/212).
EXEMPLO - “Acredito no exemplo. Tenho encontrado imitadores dos meus defeitos. Procuro imitar as qualidades alheias. Só temo vir a ser isto que chama hábil. Por isto noto que certa habilidade se infiltrou em mim, pois esta autocrítica me saiu mais parecida com auto-elogio. Abomino a habilidade. Pois quanto a mim, ela sempre foi tudo quanto o que penso e quero. O que procuro deixar para todos, como exemplo de dedicação e fé. Bravio, quase selvagem, mas não orgulhoso. Exemplo muito mais humilde, muito mais manso do que ouso dizer”. (“Crítica e Autocrítica”, edição 1966, Nova Fronteira, página 39).
EXISTENCIALIMO – “Há uma ponta de existencialismo neste modo de encarar ideais altissonantes, que as pessoas se habituam a ver escritos em maiúsculas, intangíveis? Sim, intangíveis, que não se pode tocar, portanto também inatingíveis. Mas perder a cerimônia com os ideais é o melhor meio de servir-lhes. Eles precisam ser despidos do véu cartaginês com o qual se procura divinizá-los como uma forma de esquecê-los. Eles são parte partes inseparáveis do corpo e do espírito dos homens.” (“Crítica e Autocrítica”, edição 1966 da Nova Fronteira, página 30).
FANATISMO – “Maior, porém, do que tudo é a diferença entre a convicção e o fanatismo. Desde cedo aprendi essa diferença à minha própria custa. Mas creio que nunca teria aprendido, apesar de todas as lições que a vida meu deu, às vezes bem cruamente, se não tivesse povoado de imaginação os meus princípios, de sonhos, as minhas idéias. Por isto tenho medo dos que se intitulam realistas a ponto de não deixar lugar para à imaginação. Pois à força de serem realistas, acabam cínicos. E por se tornarem cínicos destroem a força dos princípios que julgam defender”. (Carlos Lacerda, “Rosas e Pedras do Meu Caminho”, co-edição UnB-Fundamar, 2001, página 140).
FATO POLÍTICO - "Os fatos políticos, creio, descrevem uma parábola, ao termo da qual se ligam a uma nova, e assim sucessivamente. Estamos em pleno desenvolvimento da parábola. O que chamamos de revolução ainda não chegou ao apogeu. A maior crise se aproxima a olhos vistos, quase se pode tocá-la antes de vê-la, pois ela vem silenciosa, sã, enorme, pesada, como uma nuvem de tempestade, ainda que pareça distante, porque está no espaço e não ao alcance de nossa mão." ("Rosas e Pedras”, página 293).
FÉ I - "Sem fé, a nossa vida não passa de uma obrigação obscura e monótona. Com ela, se transforma numa fascinante peregrinação". (“A Via Sacra” - Jornal do Brasil de 24.03.88).
FÉ II – “Não me faltaram desapontamentos, mas os maiores foram causados pelo excesso de otimismo da perfeição das criaturas do que pelas obscuridades da fé. A fé‚ algo que acende e apaga, que ilumina e obscurece. Há um momento em que o mais douto dos teólogos deve sentir imensamente o seu desamparo, e então Clara, a minha babá, com sua medalha milagrosa, teria mais apoio para a sua fé pura e simples do que o erudito comentador dos evangelhos. Esse saldo no escuro, que o último passo, quando não tenha sido o primeiro, é que é o ato de fé." (“Rosas e Pedras”, página 183).
FILANTROPIA – “Não me importava nada dizer aqui quais eram a suas idéias políticas e tendências sociais, pois isto no balanço de uma vida é menos do que a capacidade que demonstra ser sinceramente, empenhadamente dedicado a uma causa, a um sonho, e capaz de transformá-lo em algo tangível. Ana Amélia Carneiro de Mendonça pertenceu à variedade, rara na raça humana, dos que fazem da felicidade alheia condição expressa da própria felicidade. Sua vida foi uma constante doação; curiosamente nunca fez cobrança de gratidão ou glória, como se soubesse – e com certeza sabia – que aquele era o seu modo, o único tolerável, de ser egoísta, satisfazer-se em dar aos outros possibilidade de realizarem; e manter viva, em cada pessoa, a confiança que tinha no valor da vida”. (“Em Vez ...”, 2a edição da Nova Fronteira em 1975, página 46).
FILOSOFIA - "Estou convencido de que um dia o mundo ocidental vai fazer com Descartes o que a China está fazendo com Confúcio. Vai destruir a lógica cartesiana. Porque a única lógica que pode reger uma sociedade é a hegeliana, quer dizer, o mundo dá saltos e as coisas se fazem por teses, antíteses e sínteses. E não por meras armações de silogismo. Descobri essas coisas na minha solidão". ( Na revista “Veja” de 8.05.74, página amarela).
FIRMEZA – “Não pactuar com o erro a pretexto de que assim se lhe atenua o efeito deletério, é um ato de firmeza que exige mais contenção, mais coerência, do que o simples protesto ocasional, sem conseqüências, logo extinto e logo desfeito por inconseqüência fácil de abafar e ainda mais fácil de ser esquecido. Enquanto existir uma voz que não pactua, o coro desafina. Se as vozes discordantes de todo se calam, ou falam uma vez só e nunca mais, o coro se torna perfeito, isto é, horrível na sua monotonia, na sua compungida e abjeta submissão”. (“Em Vez...”, 2a edição Nova Fronteira de 1975, páginas 13/14)
FMI - “Nenhum país ainda pobre resolveu os seus problemas com a política imposta pelo FMI. Ao contrário. Seus resultados, no Brasil, em dois anos e sete meses são: desestímulo, desorientação, desemprego, decadência, desordem e desespero”. (“Manifesto da Frente Ampla”, inserta no livro “Critica e Autocrítica, editora Nova Fronteira, 1967, página 71).
FORÇAS OCULTAS I - "Vargas morreu desiludido com os políticos oligarcas e abalado pelo poderio do domínio do sistema imperialista sobe o Brasil. Vivo, também me pr